11/09 Uma ferida difícil de cicatrizar - Gabriel Leão/Mackenzie

11/09 Uma ferida difícil de cicatrizar - Gabriel Leão/Mackenzie

Atualizado em 29/10/2004 às 11:10, por Gabriel Leão e  aluno do 7º semestre de jornalismo da Universidade Mackenzie.

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Depois de um dia quente em Nova York, saio para ir até a farmácia a duas quadras de casa no Chinatown, tradicional bairro chinês de Manhattan, localizado a aproximadamente dois quilômetros de onde um dia foi o World Trade Center. Olho para o céu naquela direção e vejo dois fachos de luz indicando que ali durante 28 anos existiram as duas maiores torres dos Estados Unidos. Já é noite do dia 10 de setembro, véspera do terceiro aniversário do atentado terrorista que derrubou as torres gêmeas.
Na manhã seguinte acordo com o som estridente do sino da igreja a quatro quadras do apartamento, as irritantes badaladas daquele sino lembravam o momento em que o primeiro avião atingiu uma das torres do WTC. Depois de perder o sono, pulo da cama com a intenção de ir até o Ground Zero, nome dado ao enorme buraco deixado pelas torres, são oito e quarenta e cinco da manhã.
Ao me aproximar do "Marco Zero" percebo a movimentação de policiais e da multidão que vai todo ano com sua bandeira americana nas mãos homenagear as pessoas que estavam no WTC naquele onze de setembro de 2001. São nove horas, já consigo ver aquele imenso quarteirão cercado por um enorme alambrado onde as pessoas fazem suas orações, ascendem velas, depositam flores ou apenas olham para o centro do buraco com os olhos cheios de lágrimas como se estivessem procurando uma resposta para aquela monstruosidade.
Os autofalantes espalhados pelo local soltam nome e sobrenome de cada vítima daquele atentado, como se fosse uma lista de chamadas. No meio de todas as pessoas que estavam assistindo a homenagem, algumas curiosidades: um senhor de óculos, barba por fazer, com uma placa protestando contra o presidente Bush e um boné com o dizer "Veterano do Vietnã"; uma senhora com um vestido todo vermelho segura uma faixa enorme com a foto do filho que está em combate no Iraque e frases antibush; outro fato notável é um homem de meia idade que toca uma flauta doce, sentado no meio da multidão, alheio a tudo aquilo que acontecia ao seu redor, com seu chapéu cheio de moedas e notas de um dólar.
Nove e cinqüenta e nove a leitura dos nomes para durante um minuto para mais uma homenagem, agora, do momento em que a primeira torre vai ao chão. Nessa hora todos param, o homem da flauta, desconcertado, para no meio da música que tocava. Os que estavam com os olhos brilhando, nesse momento, choram como se sentissem na pele a agonia daqueles que se foram naquele dia. O policial que faz a segurança encostado na grade que cerca o local, tem os olhos cheios de lágrima. O principal som que se houve é o click da maquinas fotográficas que, incansavelmente registram aquele momento que sairá impresso nos jornais e revistas dos próximos dias.
Um grupo de bombeiros se enfileira de um lado para prestar uma homenagem aos colegas que estavam lá no dia dos atentados. Numa pequena praça ao lado, um pequeno grupo de manifestantes se organizam com camisetas anti-Bush e antiterror.
São onze horas, vou embora com aquele dia marcado na memória junto com a imagem daqueles fachos de luz que iluminava o céu do dia anterior. A leitura dos nomes continua e a cada quadra que me afasto o som fica mais baixo até que não posso mais ouvi-los.