“Da decadência do ocidente ao ocaso da humanidade”, por Flavio Ferrari

Opinião

Flavio Ferrari | 21/11/2023 08:16

Não costumo ser um arauto de distopias. Sou apenas um pesquisador social que se dedica a identificar cenários futuros com maior probabilidade de ocorrência (metodologicamente), para que pessoas e organizações possam tomar as melhores decisões. A ideia é ajudar a transição da posição de possível vítima para a de protagonista do futuro, através da inovação.


O zeitgeist imediatista exige, quase sempre, que meu trabalho de consultoria seja dirigido a futuros próximos (entre 2 e 10 anos) e contextos específicos (um determinado setor de atividade). Mesmo nesses casos, entretanto, agrego uma visão mais ampla sobre possíveis acontecimentos que podem impactar dramaticamente o curso planejado.  No meu ramo de trabalho é comum chamarmos esses acontecimentos de “game changers” ou, de maneira mais suave, “incertezas”, que podem ser específicas para o setor ou de caráter mais amplo.


Duas dessas incertezas amplas ganharam tração na última década, antecipando sua janela de ocorrência.  Não podem mais ser classificadas como incertezas, porque já estão acontecendo. A primeira é de conhecimento público, embora não me pareça que estejamos realmente conscientes de seu impacto e da velocidade com que está acontecendo. Trata-se da transformação do ecossistema ambiental.


A palavra ecossistema vem do grego “oikos” (casa) e “sístima” (sistema) e corresponde a uma expressão ampla do ambiente em que vivemos e suas inter-relações. Como bem descreve Edgar Morin (O Método, livro 2), quando os ecossistemas reagem espontaneamente às ações e acontecimentos, se reorganizando, autoregenerando e autorregulando de forma complexa, sem seguir princípios ou regras conhecidas.  Eles simplesmente se reorganizam de forma a compensar excessos e voltar a um estado de equilíbrio dinâmico.


Nós, humanos, cometemos excessos. Paul Crutzen, vencedor do Prêmio Nobel de química em 1995, sugeriu o termo Antropoceno para denominar essa esta nova época geológica caracterizada pelo impacto do homem na Terra.


Apenas como exemplo, a retirada de águas subterrâneas para consumo é apontada como responsável direta e indireta por uma mudança do eixo de rotação da Terra e tem impacto significativo nas questões climáticas. 


A reorganização dos ecossistemas é um processo permanente e contínuo, que determina os rumos da vida no planeta.  Estima-se que 99% das espécies que já habitaram a superfície da Terra foram extintas, parte delas em decorrência de transformações graduais e parte pelos eventos cataclísmicos (extinção em massa).


Crédito:Reprodução
Imagem gerada por IA representando a mudança do ecossistema

Fato é que nosso ecossistema ambiental está em acelerada e irreversível transformação e já estamos sendo impactados por isso.  Já não se trata de “preservar o meio ambiente”, mas de antecipar as transformações para que possamos nos adaptar, e aprender a lição: quando se trata de ecossistemas, ações têm consequências complexas e imprevisíveis.


A segunda “incerteza” se relaciona ao ecossistema social ocidental.  Já vínhamos apontando para as transformações do sistema capitalista (neocapitalismo), que acontecia de forma gradual, a partir da “queda de braço” entre o “capitalismo selvagem” e o “capitalismo consciente”. Mais recentemente, chamamos a atenção para o fenômeno da “erosão da coesão social”, como decorrência do excessivo individualismo e da hipersensibilidade (frutos do Romantismo e das ideologias polarizantes mais atuais) e as possíveis alterações na “ordem mundial” (equilíbrio internacional de poder).  Aqui, recomendo a leitura de “The Decline of the West” (Spengler, 1918).


Tal qual vem acontecendo com nosso ecossistema ambiental, o modelo social ocidental dá fortes sinais de que não se sustentará. O ecossistema social também é impactado pelo ambiental.  É mais resistente a mudanças, mas a história demonstra que se reorganiza “espontaneamente”, por força de seus desequilíbrios. 


Isso está acontecendo agora, de forma acelerada. Mais da metade do planeta está vivenciando conflitos armados.  Os políticos extremistas e populistas vêm ganhando espaço e o crime organizado vem aumentando sua influência política. 


Paralelamente, em função da imigração e das diferenças entre as taxas de natalidade, a população islâmica pode chegar a 30% em alguns países da Europa nos próximos 20 anos,  o que deve promover uma transformação cultural significativa no velho continente.


A civilização ocidental também se encontra em um processo de transformação acelerado e irreversível, que poderá ser potencializado pelas questões ambientais. Voltando ao início, não se trata de uma visão distópica, apesar do tom algo dramático da mensagem.


Parece trágico porque se trata de um conjunto de profundas mudanças sobre as quais não teremos muito controle, e não gostamos dessa ideia, já que costumamos nos colocar no centro do Universo. Mas, exercitando um certo distanciamento, é apenas um par de ecossistemas se autorregulando, buscando um novo equilíbrio.


Há que utilizar nossos recursos pessoais e coletivos para garantir nossas melhores condições de sobrevivência nos novos cenários possíveis.  Isso é Protopia.


Tecnologia será importante, mas a educação, em seu sentido mais amplo, é o que nos mostrará o caminho.


Crédito:Arquivo Pessoal





*Flavio Ferrari é Professor na ESPM e Sócio da SocialData


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