“Data Driven e Cenários Futuros” por Marcelo Molnar

Opinião

Marcelo Molnar | 20/07/2022 06:29

Recentemente li um texto da colunista do Bloomberg, Allison Schrager que me fez refletir sobre o perigo do uso dos dados de forma indiscriminada. Sou árduo defensor do conceito DDD – Data Driven Decision e participo de um movimento para a formação de uma comunidade sobre o tema, para empoderar e desenvolver competências nessa área. Mas confesso que muitos dos erros atribuídos a tomada de decisão baseada em dados se deve mais ao despreparo dos profissionais, do que propriamente dito do conceito e de sua utilização.


Hoje, a prática de deixar que os dados guiem nossas deliberações se tornou uma grande possibilidade. Nossas vidas se tornaram influenciadas e orientadas por eles. As atividades online que praticamos geram mais registros do que nunca. Os atuais computadores e algoritmos permitiram uma análise detalhada desses dados. Podemos pensar que todas as viagens que fizemos, tudo o que compramos e todos os sites que visitamos, entre outras atividades, aumentaram o poder preditivo e possibilitaram prever nossas decisões, mesmo que pareça um pouco assustador.


Sempre contamos com dados para prever o futuro. Mesmo quando éramos totalmente analógicos, as experiências passadas direcionavam como percebíamos o risco e fazíamos escolhas. Mas durante o século passado, o poder tecnológico fez com que o cruzamento de informações, começasse a influenciar nossas vidas. Isso era especialmente verdadeiro nas finanças, que levavam em conta os valores dos títulos dos mercados para fazer projeções sobre para onde os preços iriam no futuro, como se proteger ou fazer seguro contra riscos.  


Crédito:Reprodução
Com os dados podemos tomar decisões de forma mais científica, com base em muito mais experiências do que apenas as nossas. A precisão aumentou. Muitos negócios tornaram-se mais previsíveis e eficientes. Não só nós temos a disposição o melhor caminho para nossa viagem, como os algoritmos sabem quais sapatos queremos comprar antes de escolhermos. As companhias aéreas podem vender mais assentos porque tem previsão de como será a procura dos voos. Desta forma as empresas podem prever melhor a demanda e gastar menos mantendo estoques. 


Porém, mesmo com esses grandes volumes dados temos que entender que eles são registros do passado. Acontece que mundo mudou significativamente nos últimos anos e muitos desses dados não são mais tão preditivos assim. Por exemplo: A inflação está de volta e a forma como e o que compramos nos últimos tempos foi em um cenário de economia mais estável. As taxas de juros estão subindo, e mudará a forma como economizamos, investimos e compramos.  


Nossos comportamentos não mudaram apenas em relação à economia. Os padrões de tráfego de 2019, antes da pandemia, quando o modelo era que quase todos trabalhavam em escritórios, cinco dias por semana, não são mais tão úteis, nem as projeções sobre quais roupas precisaremos. Nos últimos dois anos mudamos a forma como assistimos e escolhemos filmes em casa ou como escolhemos comer em um restaurante. As viagens de lazer estão em alta, mas há muito menos viagens de negócios, o que torna difícil para as companhias aéreas saber quantos assentos irão vender. A famosa frase que nunca mais voltaremos ao que chamamos de normal, se aplica fortemente aos dados.


O mercado de trabalho está caótico por muitas razões, mas principalmente pela escassez de mão de obra qualificada, por isso é difícil saber o quanto nossos algoritmos alimentados por dados estão retratando a verdade. O mundo realmente mudou, e provavelmente levará anos para termos dados significativos para alimentar algumas de nossas decisões corretamente. Os registros anteriores podem sinalizar uma tendência, porém muito longe da certeza. 


Se olharmos ao longo da história, verificaremos que é incomum mudanças tão profundas no mundo em um espaço de tempo tão curto. Problemas globais de aquecimento, pobreza, desigualdade, fome, conflitos regionais, imigração, epidemias, desequilíbrio energético, entre outros, alteram significativamente o relacionamento global e a cadeia de suprimentos. Mas, este cenário, nos oferece a valiosa lição que não podemos esquecer: os dados são um guia e nunca um substituto absoluto para os nossos julgamentos. Precisamos olhar todas as previsões, grandes e pequenas, e equilibrá-las com nossa própria experiência pessoal. O radicalismo nunca será uma boa alternativa, seja com os dados ou com a intuição. O Data Driven ainda nos ajudará a aprendermos a pensar com equilíbrio.


Crédito:Arquivo Pessoal


*Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, com pós graduação em Marketing e Publicidade. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Coautor do livro "O segredo de Ebbinghaus". Atualmente é Sócio Diretor da Boxnet.






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