“Imprensa brasileira precisa nos informar sobre a África”, por Wagner de Alcântara Aragão

Opinião

Wagner de Alcântara Aragão | 17/06/2022 11:59

Se a gente for depender do noticiário dos grandes veículos de comunicação do Brasil, ficaremos sem saber o que se passa na África – exceto em caso de alguma catástrofe, conflito, ou crise fitossanitária. Desde que a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) deixou de ter correspondente em Moçambique, em meados da década passada, estamos órfãos de informações cotidianas, aprofundadas, sob nosso olhar, a respeito do que ocorre no continente africano.


O que é inadmissível.


Afinal, somos – toda nação brasileira - afrodescendentes. Temos o direito de saber da vida na terra dos nossos ancestrais, onde estão raízes da nossa cultura. A luta contra o racismo estrutural passa por um processo de “decolonizar” nossa mídia.


Por que vemos todos os dias imagens nos telejornais de Nova Iorque, Londres e Paris, mas não somos informados sequer sobre como está a vacinação contra a covid-19 em Angola? Por que sabemos dos lançamentos de Hollywood, mas não somos apresentados a Nollywood, a indústria cinematográfica da Nigéria?


Por que, ainda, vira e mexe nos contam sobre bastidores da monarquia britânica, no entanto ignoramos fatos importantes da África do Sul? De Cabo Verde, Senegal, República do Congo, Etiópia, Quênia, quando algo nos chega, é sob o ponto de vista das agências internacionais. Ficamos alheio à vida dessa região do planeta da qual temos ligação umbilical.


Crédito:Divulgação
Luanda, a capital da Angola e a maior cidade do país

Se as empresas brasileiras de mídia dispõem de gente em todos os cantos da Europa, em várias cidades do Estados Unidos, e não raro até no Extremo Oriente, o que as impede de manter equipes em pelo menos uma nação africana?


Tivemos experiências recentes. Uma delas, já mencionada, a EBC, entre o início e meados dos anos 2010. Com a representação em Moçambique, havia produção de conteúdo para a TV Brasil e para Agência Brasil, noticiário que se replicava por jornais e sites de notícias. No entretenimento, tivemos em 2014 a exibição, pela TV Brasil propriamente dita, da novela angolana “Windeck – Todos os Tons de Angola”, indicada ao Emmy Internacional.


Agora em 2022, a Band exibiu para o Brasil jogos da Copa das Nações Africanas, com excelente repercussão. Que as próximas edições desse torneio continental de futebol sejam transmitidas também.


A reparação pela dívida ética, moral, cultural e social que temos para com os povos africanos passa por nos religarmos ao lado de lá do Atlântico, papel que cabe, em boa medida, aos meios de comunicação. Comecemos.



Crédito:Arquivo Pessoal


*Wagner de Alcântara Aragão é doutorando em Comunicação (UFPR), jornalista e professor da rede estadual de educação profissional do Paraná. Mantém um veículo de mídia alternativa (www.redemacuco.com.br), ministra cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e realiza projetos culturais.





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