“A banalidade da vida, a banalidade da morte”, por Rafiza Varão

Opinião

Rafiza Varão | 03/06/2022 09:04

Cheguei no ano passado ao Canadá, vindo cumprir uma missão de pesquisa. Das primeiras coisas que me geraram lamento, após essa chegada,  foi ver no noticiário local os números da Covid-19. Desembarquei aqui em pleno início da alta da variante Ômicron, mas o que me chamou a atenção foi o fato de que a mortalidade causada pela doença no país era proporcionalmente muito menor que a do Brasil (em números absolutos também, bem abaixo). Aqui, o índice de mortalidade ficou dentro da margem original prevista e, para que o país chegasse perto do número de mortes do Brasil, no mesmo período, seria necessário que houvesse algo próximo de 200 mil mortes a mais. Embora o país carregue seu próprio genocídio nas costas, a política de enfrentamento à pandemia, aqui, existiu.


Acompanhar os fatos do dia, as notícias de outro país in loco, reforçou o que minha alma acadêmica, de estudiosa do jornalismo e da comunicação, durante tantos anos lecionou: o conteúdo dos jornais não apenas nos dizem da realidade, do que acontece ao nosso redor, mas nos conforma em uma comunidade imaginada, na qual sabemos quem somos como nação,  inclusive, por esse conteúdo. Observar essa comunidade imaginada (e real) a distância, no caso brasileiro, não se dá sem dor: a constatação é fácil, a necropolítica venceu.


Do último domingo até o momento em que escrevo esse texto, vi nas páginas de nossos jornais, em vídeos, nas mídias sociais, o policial federal que atirou em várias pessoas em uma lanchonete de um posto de gasolina em Curitiba (com o registro de um óbito e vários traumas), uma chacina policial na Vila Cruzeiro (na cidade do Rio de Janeiro), com 26 mortos, o homem que morreu no porta-malas de uma viatura da Polícia Rodoviária Federal (!) na cidade de  Umbaúba (SE) – para citar apenas os casos de maior repercussão. 


Crédito:Duke
Duke recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog em 2020/ Revista IMPRENSA seção Traço nov 2020

Os três acontecimentos expõem a rotinização da morte no contexto brasileiro, uma certa indiferença pelas vidas e pelos corpos, uma expressão do aniquilamento destes pelo poder e que tão bem foi definida pelo filósofo camaronês Achille Mbembe como necropolítica (política de morte). Esta tem como projeto central “não a luta pela autonomia, mas a instrumentalização generalizada da existência humana e a destruição material de corpos humanos e populações”, como afirma Mbembe. Alguns corpos e populações são, nesse sentido, claramente mais propensos a serem engolfados pelo avançar da morte, autorizada/permitida pelos governos. Desse modo, o Estado cria estruturas de “zonas de morte”, regiões (no sentido literal ou metafórico) em que a morte é permitida, ou mais que isso: incentivada. 


Essas estruturas, sem surpresa alguma, estão atreladas por sua vez ao racismo, às classes sociais, aos gêneros etc, delimitando quem pode morrer, tornando também aceitável o morrer (que pode ser tão bem expresso no jargão brasileiro “fazer o quê?”). O uso ilegítimo da força, legitimado pelo poder, aparece como primeira necessidade para garantir a segurança do que se define como a maioria da população, ou a população “verdadeira”, que deve ser resguardada mesmo que isso signifique romper por completo com os direitos do que se considera menos humano. 


Claramente, essa não é uma política exclusiva do Brasil. Entretanto, assistir ao noticiário em outro território, em que a morte ainda parece algo assustador e não corriqueiro, nos dá a certeza, a triste comprovação de que, em nosso país, a necropolítica venceu. É possível percebê-la todos os dias, vivendo em solo brasileiro; não é necessário sair de casa para atestar sua vitória. Mas de longe, carregando a comunidade imaginada no coração e na alma, os contornos dessa violência se tornam extremamente nítidos. Como disse o escritor português Saramago, é preciso sair da ilha para ver a ilha. No Brasil, a necropolítica caminha a passos largos, sem nenhuma vergonha. Vivemos a banalidade da vida e a banalidade da morte. 


*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jorna-lismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especi-almente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Im-prensa e é co-ordenadora editorial da FAC Livros.



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