“Cala-te, Cirilo!”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 31/05/2022 17:47

No dia 24/05/2022 a guerra na Ucrânia completou três meses, e, até agora, não se vislumbra nenhuma perspectiva de cessar-fogo ou retomada das negociações para o fim do conflito. Muito pelo contrário: após a conquista russa de Kherson, no sul, e o fim da heróica resistência em Mariupol, no sudeste, um novo e crescente cenário apocalíptico surge na região de Donbass, no leste, onde forças russas concentram suas ações e bombardeiam, sem piedade, a estratégica cidade de Severodonetsk, reduzindo-a a pilhas de escombros. Essa política de terra arrasada utiliza bombardeios aéreos, morteiros, tanques, lança-foguetes e uma série de outros recursos que não poupam a população civil. Tal como declarou Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança Russo, “não perseguimos nenhum prazo. Todos os objetivos estabelecidos pelo presidente Vladimir Putin serão cumpridos. Não pode ser de outra forma, porque a verdade histórica está do nosso lado”.


O que chama a atenção, para querer endossar a falácia de tal verdade histórica que reivindica a Ucrânia como parte inalienável do império czarista de Putin, é a postura de Cirilo I, patriarca e líder da Igreja Ortodoxa Russa, que, além de não dizer uma só palavra contra a agressão, tem usado a propaganda religiosa sistemática e a desinformação para justificar a guerra, descrevendo a situação como parte de “uma luta contra o pecado”. Para Cirilo I, este é um confronto que precisa ser encarado como um drama não só nacional, mas também religioso, uma batalha existencial em que o bem (Rússia) se opõe ao mal (Ucrânia), um confronto entre a tradição e valores morais contra as influências estrangeiras corruptoras presentes na Ucrânia. Ele chegou a afirmar, num de seus sermões, que “entramos em uma luta que não tem um significado físico, mas metafísico”. Parece enlouquecedor imaginar que um líder espiritual tão importante veja, na guerra, a oportunidade de travar uma ofensiva contra o “decadente” Ocidente, que segundo ele deve ser combatido porque é conivente com pecados inaceitáveis, como relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo - algo que é criminalizado na Rússia. Ao mesmo tempo em que externa sua homofobia, numa postura hipócrita e dissonante, ele não condena seu protegido, Vladimir Putin, que sabidamente manteve um relacionamento extraconjugal com Alina Kabaeva, ex-ginasta com quem supostamente teve dois filhos. 


Crédito:Wikipedia

Não é de hoje que Cirilo I manipula a religião para justificar a guerra e colocar um manto sagrado nas fake news. Em outubro de 2015 ele concedeu uma bênção à intervenção russa em prol do presidente e ditador sírio, Bashar al-Assad, classificando a operação como uma “guerra santa para proteger os cristãos”. Valendo-se da retórica, à época afirmou que “a Rússia tomou a decisão responsável de usar forças militares para proteger o povo sírio dos problemas causados pela tirania dos terroristas”, explicando que os bombardeios que também matavam a população eram necessários porque “o processo político não levou a nenhuma melhoria perceptível na vida das pessoas inocentes e estas precisavam de proteção militar”. Cirilo I e Putin compartilham a mesma visão russa de mundo, que conecta expansão territorial com valor espiritual. Essa conexão entre política bélica russa e religião conduziu a um levante na ortodoxia mundial, tal o grau de descontentamento de algumas igrejas. Vale lembrar que a Ucrânia possui cerca de 30 milhões de ortodoxos, divididos entre a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscou e outras duas igrejas ortodoxas, e Cirilo I já é considerado um traidor e não mais é homenageado nas cerimônias.


Sem dúvida, religião e guerra são temas que muitas vezes se sobrepõem. Basta lembrar que, desde as Cruzadas até hoje, inúmeras batalhas são travadas em nome da fé. Muitos creem que, se não houvesse religião, o mundo estaria mergulhado em guerras, pois a fé é a promotora da paz. Outros, contudo, afirmam que guerra e religião são elementos inseparáveis. A História mostra que, muitas vezes, a religião costuma tolerar, justificar ou mesmo apoiar a guerra, enquanto finge se empenhar pela paz. O teólogo ortodoxo francês, Jean-François Colosimo, chegou a pedir a destituição do Patriarca Cirilo I, afirmando ser necessário “reunir os responsáveis das Igrejas locais para depô-lo, num ato colegiado. Ou seja, destituí-lo, praticando a excomunhão que ele mesmo provocou, pois estamos diante de uma tentativa de reconstrução imperial do tipo comunista”. É improvável que o conselho de Colosimo seja colocado em prática. Portanto, enquanto Cirilo I continuar representando o maniqueísmo de um discurso religioso velho e ultrapassado, resta-nos apenas rezar e pedir: cala-te, Cirilo!



Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br





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