“A mudança de mãos do Twitter e o desafio de combater o monopólio da informação”, por Wagner de Alcântara Aragão

Opinião

Wagner de Alcântara Aragão | 05/05/2022 08:28

Ninguém, por mais bilionário que seja, gasta US$ 44 bilhões por brincadeira. Portanto, a compra do Twitter pelo empresário Elon Musk é motivo de muita preocupação. Preocupação para o mercado de mídia. Preocupação para a economia, para a geopolítica. Preocupação para a liberdade de expressão. Preocupação para a democracia.


Não é de hoje que discutimos os efeitos colaterais do oligopólio das big techs no mundo. Aqui mesmo no Portal IMPRENSA há uma série de notícias e análises que evidenciam efeitos nefastos. A mais recente (Desinformação Climática: Twitter é o mais mal avaliado em ranking de redes sociais), por exemplo, aponta como as redes sociais digitais têm contribuído para a humanidade estar mal informada sobre as mudanças climáticas.


Os US$ 44 bilhões desembolsados por Musk equivalem a mais ou menos R$ 220 bilhões. Duzentos e vinte bilhões de reais, ou 10% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro de um trimestre! Seguramente, um montante superior ao PIB de uma porção de países.


Crédito:Reprodução
Passarinho do Twitter se transforma em ave poderosa
Ninguém, por mais bilionário que seja, dedica essa fortuna só para ter uma rede social para chamar de sua. Antes de mesmo de adquirir o Twitter, o empresário já aplicava seu poder para, via rede social, interferir no mercado a seu favor. Tanto que já foi punido, com multa, pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, por “enganar investidores” em 2018, quando, por meio de uma postagem no Twitter, conseguiu valorizar em 15% as ações de sua empresa, Tesla.


Em 2020, não teve pudor, também pelo Twitter, em defender o golpe contra o presidente da Bolívia, Evo Morales. Em tempo: a Bolívia possui das maiores reservas de lítio no planeta, mineral necessário para baterias de carros elétricos, como os produzidos pela Tesla de Musk.


Temos, pois, motivos de sobra para agir a fim de evitar que a circulação do que acontece no mundo esteja sob esse monopólio. Porque não é só uma questão de concordar ou discordar com o que se diz ou se disser no Twitter. Não é só uma questão de usar ou não a rede social em questão. É o risco de termos nosso entendimento sobre a vida neste planeta forjada pela visão e interesses particulares duma única pessoa.


Como agir? Regular o mercado, o primeiro passo. O que não é fácil, nesse mercado de big techs. Mas não é impossível. É imprescindível. Dos maiores desafios para a democracia.


A regulação do mercado, contudo, não basta para garantir pluralidade da informação, com qualidade. Políticas de fomento à Comunicação Social, similares às da Cultura, ampliaram o leque de atores produzindo conteúdo.


Outra medida: o país investir em suas próprias tecnologias. Demos, na década passada, um salto no desenvolvimento de tecnologias em software livre que nos deram autonomia em alguns segmentos – o seguro e exemplar programa de declaração do Imposto de Renda é o produto mais evidente. Essa trajetória precisa de ser retomada.


Crédito:Arquivo Pessoal


*Wagner de Alcântara Aragão é doutorando em Comunicação (UFPR), jornalista e professor da rede estadual de educação profissional do Paraná. Mantém um veículo de mídia alternativa (www.redemacuco.com.br), ministra cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e realiza projetos culturais.




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