“Os russos apoiam a guerra?”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 29/04/2022 07:58

Em 14/04/2022, após ter sido atingido por dois mísseis ucranianos do tipo Neptune, o cruzador Moskva, principal navio de guerra russo, afundou no Mar Negro, causando a morte de pelo menos metade dos tripulantes. Sem dúvida, um duro golpe na guerra orquestrada por Vladimir Putin, pois a embarcação, com capacidade para 510 pessoas, era um símbolo do poderio russo na região, tendo sido anteriormente usada até mesmo no conflito na Síria, fornecendo proteção naval aos militares que estavam na região. Era também considerado o terceiro maior navio ativo de toda a frota da Rússia e, de acordo com especialistas, possuía um dos melhores sistemas de defesa. Mas, afinal, o que esse episódio tem a ver com o apoio da população russa à guerra na Ucrânia?


Comecemos a resposta com a explicação do Ministério da Defesa russo e da imprensa estatal para o episódio: o Moskva estaria sendo rebocado para o porto quando “mares tempestuosos” causaram o naufrágio. O incêndio a bordo teria sido causado por uma explosão de munição, não tendo nenhuma relação com bombardeios ucranianos. Eis aí esboçado, de forma pontual e representativa, o tipo de informação que a população recebe por meio dos canais oficiais de comunicação. Ao mesmo tempo em que acaba com a liberdade de expressão, o Kremlin distorce a verdade, prende opositores e transmite a ideia de que o ocidente está cercando a nação em várias frentes, o que pressupõe a necessidade de lutar até o fim. Vozes corajosas como a de Marina Ovsyannikova – jornalista do Canal 1 que interrompeu a transmissão da noite na rede de TV estatal com um cartaz dizendo "Não acredite na propaganda. Eles estão mentindo para vocês" – não mais existem. 


Crédito:Reprodução/ Telegram

É dentro desse contexto que são feitas as pesquisas de opinião oficiais, que supostamente mostram apoio maciço da população à guerra na Ucrânia. O Centro Russo de Pesquisa de Opinião Pública VSIOM, por exemplo, dá conta de que cerca de 70% dos russos apoiam a chamada “operação militar especial” na Ucrânia e também acreditam que a operação está transcorrendo bem para o exército de seu país. Esses números se assemelham à enviesada pesquisa do Fundo de Opinião Pública FOM, que atende encomendas do presidente Vladimir Putin, segundo a qual 65% dos russos aprovam as ações contra o governo de Kiev. Curiosamente, o oposicionista Alexei Minyailo apontou que, entre os russos que apoiam a guerra, a maioria (83%) confia na mídia estatal, o que em parte explica a miopia em relação ao que está ocorrendo no campo de batalha, onde se estimam em cerca de 20 mil o número de militares russos mortos, bem diferente dos 1.350 divulgados no único balanço de perdas divulgado pelo Ministério da Defesa russo, em 25/03/2022. Isso, claro, sem falar dos massacres de civis que chocaram o mundo, não somente na cidade de Bucha, mas também em Mariupol, Kharkiv, Chernobyl e tantas outras, mas que não aparecem nos meios de imprensa estatais do Kremlin.


É interessante notar o enviesamento das pesquisas até mesmo na forma de elaborar as perguntas, conforme nos ensina o professor de Sociologia Alexei Bessudnov, da Universidade de Exeter. De acordo com ele, a resposta varia quando se pergunta sobre a “operação militar especial de desmilitarização e desnazificação da Ucrânia” ou sobre “a invasão e guerra na Ucrânia”. Além do mais, é necessário considerar os riscos que os respondentes sentem ao responderem a pesquisa de forma autêntica, pois são bem conhecidas as punições e o controle rígido aos que se opõem ao sistema. Nunca é demais lembrar que, em 17/03/2022, Vladimir Putin ameaçou os cidadãos russos que se opõem à intervenção militar, dizendo que “qualquer povo, e ainda mais o povo russo, sempre será capaz de distinguir verdadeiros patriotas da escória e dos traidores, e simplesmente cuspi-los como uma mosca que acidentalmente entrou em suas bocas”.


A declaração do presidente russo vai ao encontro do que o filósofo francês Michel Foucault chamou de `regimes de verdade´, ou seja, discursos que, em meio a diversas narrativas, são escolhidos e reproduzidos como únicos e verdadeiros, anulando as demais vozes dissonantes. Infelizmente, isso significa que muitas pesquisas de opinião, na prática, apenas reverberam o discurso de poder estatal, disciplinando o que é legítimo ser divulgado e ocultando o que não interessa. Por isso, é sempre importante atentar para como as narrativas são construídas, quem as financia e quais interesses buscam atender. Essa consciência evitará erros de julgamento em relação às manifestações da opinião pública e manipulações insidiosas de regimes autocráticos. 




Crédito:Arquivo Pessoal

*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br





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