“Putin e a doutrina da maskirovka”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 30/03/2022 09:40

Em 21/02/2022, pouco antes da invasão da Ucrânia, o presidente russo, Vladimir Putin, fez um discurso televisivo de aproximadamente uma hora em que, além de reconhecer a independência das repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, distorceu por completo a História e mostrou a face mais sombria da doutrina maskirovka. Para ele, "a Ucrânia moderna foi criada inteiramente pela Rússia, mais precisamente pelos bolcheviques, a Rússia comunista, e historicamente faz parte do território russo. Ninguém perguntou aos milhões de pessoas que viviam lá o que pensavam disso”. Além disso, “a Ucrânia nunca teve tradições estáveis de um Estado de verdade e, portanto, em 1991 - após o colapso da União Soviética -, ela optou por uma imitação imprudente de modelos estrangeiros que nada têm a ver com a história ou com as realidades ucranianas”.


Crédito:Pixabay

As afirmações de Putin, sem qualquer respaldo na verdade, fazem parte da maskirovka, vigente desde a época soviética, que consiste em mentir e dissimular para tirar proveito da situação e confundir a percepção da realidade. Trata-se de uma mistura proposital e persuasiva de fatos e invenções que fundamentam a arte da desinformação. Semanas antes do início da agressão à Ucrânia, mesmo concentrando mais de 100 mil soldados na fronteira, o Ministério das Relações Exteriores russo classificou os alertas do ocidente sobre uma iminente invasão da Ucrânia como propaganda e histeria, sugerindo fazerem parte de um ataque que estaria sendo preparado contra separatistas pró-Moscou no leste do país. Ou seja: uma completa inversão da realidade. Após a invasão, o Kremlin mudou o discurso e passou a chamar a guerra de “operação militar especial” para desmilitarizar e desnazificar o país vizinho, caracterizando como crime - com punição de até 15 anos de prisão - quem, na Rússia, se referir aos acontecimentos como guerra. 


A campanha de desinformação russa é apoiada num duro regime de censura à imprensa e às redes sociais. Facebook e Instagram foram banidos, o Twitter foi bloqueado e estima-se que mais de 15 mil pessoas foram presas por protestos nas ruas. A voz uníssona dos meios de comunicação estatais russos impõe uma realidade paralela de mentiras que se multiplicam sem pudor, chegando a afirmar que a Ucrânia é responsável por bombardeios em suas próprias cidades. Fala-se no uso de tecnologia de alta precisão para atingir apenas alvos militares e estratégicos e se omitem as imagens dos crimes de guerra cometidos nos bombardeios indiscriminados a casas, hospitais, creches, teatros e inúmeros outros alvos civis. Mariupol possivelmente é o exemplo mais visível e trágico de uma cidade em ruínas, que praticamente não existe mais. Agências de notícias russas como a RT e Sputnik foram impedidas de fazer transmissões na União Europeia, tal é o grau de desinformação e fake news que veiculam.


O regime czarista de Putin, ao contrário do que fazia a antiga propaganda soviética, que buscava exaltar as qualidades inerentes ao povo russo, vai além e busca deslegitimar o inimigo. Nas palavras dele, o governo democrático do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, é composto por um bando de “nazistas drogados” - cumpre lembrar, contudo, que Zelensky é judeu. Fazendo coro à voz do déspota russo, o ministro das Relações Exteriores do país, Sergei Lavrov, disse que “o que está ocorrendo na Ucrânia é uma batalha de vida ou morte pelo direito da Rússia de estar no mapa político do mundo com total respeito por seus interesses”.


O storytelling é o mesmo que foi relatado por inúmeros soldados russos, que afirmaram terem sido informados que participariam de um exercício militar, não de uma guerra. A maskirovka mente, pune e cala as vozes dissonantes. Um dos exemplos mais pródigos, dentre os muitos que existem, é o de Alexei Navalny, ativista político e blogueiro que foi envenenado, preso e condenado a nove anos de prisão, numa colônia de segurança máxima, por ter denunciado casos de corrupção do governo russo. Infelizmente, milhares de civis ucranianos foram mortos de forma cruel e cerca de 4 milhões deixaram o país após um mês de guerra. A face mais sombria da tragédia, contudo, fica estampada numa reportagem feita no início deste mês (março/2022), pelo The New York Times, em que uma senhora russa declarou o seguinte a uma familiar sua que mora na Ucrânia: "Não tem ninguém bombardeando Kiev e você deveria, na verdade, ter medo dos nazistas, grupo contra o qual seu pai tanto lutou. Suas crianças vão ficar bem e saudáveis. Nós amamos os ucranianos, mas vocês precisam pensar bem sobre quem elegem". Enquanto bombas caem na Ucrânia, a maskirovka segue firme em sua tarefa de anestesiar a lucidez e a consciência.



Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal IMPRENSA, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br





Leia também

Nos dois lados do conflito, imprensa é atacada na guerra Ucrânia x Rússia

“O que há de novo no front”, por Rafiza Varão