“O que há de novo no front”, por Rafiza Varão

Opinião

Rafiza Varão | 28/03/2022 17:53

No dia 21 de março, o jogador de futebol David Beckham, inglês, emprestou sua conta do Instagram, com quase 72 milhões de seguidores, para a ucraniana Yrina, identificada apenas pelo primeiro nome. Yrina, que é médica diretora e anestesista pediátrica no Centro Perinatal Regional em Kharkiv, pôde utilizar o perfil de Beckham para compartilhar, em seus stories, a realidade enfrentada no porão em que profissionais de saúde, gestantes, puérperas e crianças buscaram abrigo da guerra. O gesto de Beckham se deu em parceria com a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância, do qual o jogador é embaixador), com o objetivo de dar visibilidade às necessidades e sofrimento de ucranianos durante a invasão comandada pela Rússia, bem como apoiar as ações do fundo no país. O ato de Beckham nas mídias sociais, assim como outras realizadas por pessoas com menor notoriedade, ajuda a desmantelar a narrativa/propaganda de guerra russa de que a entrada em território ucraniano tem sido pacífica, com objetivos nobres (entre eles uma suposta desnazificação do país), sem vítimas. 


Ajuda a desmanchar as acusações de fake news perpretradas pelo Kremlin contra a mídia ocidental ao cobrir, com muitas imagens, inclusive, o que vem acontecendo na Ucrânia. Essa é a grande novidade desse conflito: que a propaganda de guerra seja feita pelas mídias sociais – ao mesmo tempo que sua desconstrução, do mesmo modo, se dê nesse espaço, realizada por indivíduos comuns ou nem tanto, de forma quase imediata. Cabe à imprensa perceber o que é essa propaganda, bem como o que é mais que propaganda neste conflito, desconstruindo-a igualmente. 

David Beckham on Instagram: “Today I'm handing over my social channels to Iryna, the Head of the Regional Perinatal Centre in Kharkiv, Ukraine where she is helping…”

Crédito:Reprodução Instagram
David Beckham cede a conta no Instagram para médica ucraniana



Dois dias antes da publicação de Beckham cedendo espaço à Yrina, Wladimir Putin pareceu um tanto anacrônico ao promover comício de comemoração à anexação da Crimeia pela Rússia (que aconteceu em 2014), num tom nacionalista vexatório e festivo. Falou em questões religiosas, libertação do nazismo, passado glorioso da Rússia. Falou em felicidade. Enfim, discursou pela cartilha dos líderes autoritários de hoje e de ontem, apelando para imagens que se parecem tanto com o mundo real quanto a ideia de que há um reino encantado depois do arco-iris. Mas para além do teatro do palco e bandeiras russas, Putin não passa ao largo de seu tempo e o que se vê é também resultado de como a liderança russa avançou sobre as mídias sociais, especialmente o Twitter. 


De acordo com matéria publicada pela BBC, há mais de cem contas oficiais do governo russo no Twitter, algumas com mais de um milhão de seguidores. Essas contas seguem as lições do populismo e autoritarismo digital, disseminando desinformação a passos largos. Tais contas, como as de bots, auxiliam na construção de um universo informacional baseado nas verdades almejadas pelo presidente russo. Embora o Twitter tenha alegado evitar, nesse momento, a “amplificação” dos tuítes de meios de comunicação controlados pelo governo russo, o procedimento não se estende às contas oficiais deste, o que permite que elas sejam utilizadas da mesma forma que a imprensa não livre da Rússia. Dessa forma, a Rússia fala para si própria, do mesmo modo que Putin já vinha fazendo há alguns anos, o que deságua nas justificativas inverossímeis para esta guerra, talvez aceitas por parte significativa da população russa. Infelizmente, não temos como saber ao certo sobre essa aceitação, mas o recente episódio com a jornalista Marina Ovsyannikova, que realizou um protesto no principal canal televisivo russo, o Canal 1, nos dê um vislumbre de uma resistência à comunicação de Putin (e à própria guerra). 


Por outro lado, o presidente ucraniano Wolodymyr Zelensky se vale do seu poder erguido justamente pela sua atuação nas mídias sociais, se utilizando de recursos também nacionalistas e populistas, para se comunicar de forma direta não só com os ucranianos, mas com o mundo. Ele faz parte da coleção de políticos da nova direita global que alcançou sucesso utilizando as mídias sociais como principal ferramenta de comunicação com seus eleitores, diretamente, sem intermediários ou centenas de contas oficiais. A estratégia de se comunicar não apenas com o seu povo, mas com as nações de forma geral, utlizando seu próprio rosto e sua própria voz, tem se mostrado acertada. Embora o antigo ditado afirme que numa guerra a primeira vítima é a verdade, nos lembrando que todos e tudo podem ser suspeitos, não há como negar o que Zelensky nos diz: uma grande potência militar (e nuclear) ataca um país bem mais frágil militarmente, com poucas condições de sobreviver e manter sua soberania perante esse poderio. As chances da Ucrânia ser anexada ao território russo não são minímas. Entretanto, pelo menos essa guerra, a das mídias sociais, parece estar sendo vencida pelo presidente ucraniano. 


Sendo a Rússia país quase impenetrável pela imprensa internacional, incluindo aí a brasileira, e a Ucrânia um destino pouco comum tanto para imigrantes quanto para turistas, quase sem repórteres correspondentes em solo, não é pouca coisa que agora possamos contar com o relato dos indivíduos comuns, como a médica Yrina citada no início desse texto, como os milhões de refugiados que já se contabiliza, como gentes que por acaso estavam ali, naquela região, vivendo dias comuns da sua vida e foram atingidas pela catástrofe. 


Contudo, quando pensamos no que se enfrenta agora, é importante que o jornalismo brasileiro ultrapasse o maniqueísmo de dois fronts que podem ser compreendidos pela velha dicotomia da propaganda de guerra em que é fácil identificar satã e suas estratégias em meio à multidão. Nossa imprensa ainda tem pecado nisso (para utilizar novamente o jargão religioso). Há muita coisa oculta. Mais que identificar, deve-se explicar, fazer previsões, destrinchar. É nesse momento que o esforço da apuração se mostra ainda mais necessário, pois não basta mostrar, é preciso entender. Apontar essa falha não tem nada a ver com a defesa de uma pretensa neutralidade. Há pessoas na Ucrânia que viraram estrangeiras do dia para a noite (ou da noite para o dia). Essas tiveram sorte. Muitas outras não viram mais a mudança no calendário. A novidade da propaganda nas mídias sociais não pode suplantar o que há de mais velho e odioso nas guerras. 




*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jorna-lismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especi-almente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Im-prensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.



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