“Ao transmitir basquete feminino, Cultura preenche vazio na TV aberta”, por Wagner de Alcântara Aragão

Opinião

Wagner de Alcântara Aragão | 23/03/2022 15:38

A TV Cultura iniciou em 13 de março, as transmissões semanais de partidas da temporada 2022 da Liga de Basquete Feminino (LBF). A LBF é o principal torneio interclubes do país, na modalidade. A equipe vencedora se consagra campeã nacional.


A exibição dos jogos põe o basquete feminino em lugar que merece: na programação da televisão aberta. Afinal, é um dos esportes responsáveis pelas conquistas mais importantes do Brasil no desporto internacional. Ademais, é uma das atividades mais praticadas em escolas, clubes e centros de formação esportiva.


Ou seja, a iniciativa da TV Cultura de transmitir a LBF preenche uma lacuna e, ao fazê-lo, demonstra a importância do princípio da complementaridade do sistema de radiodifusão aberta. Esse princípio, expresso no artigo 223 da Constituição, estabelece que a distribuição de canais de rádio e televisão deve ser feita entre entes privados, públicos e estatais, de forma equilibrada.


E por que? O caso da TV Cultura exibindo a LBF responde: para que toda a diversidade cultural da nação seja representada nos meios de comunicação de massa. Porque, se determinado conteúdo não interessa, comercialmente, ao conjunto de emissoras particulares, a sociedade não pode ser privada de ter acesso. Entram, então, os canais públicos e estatais.


Crédito:Reprodução

Lamentavelmente, o dispositivo constitucional da complementaridade do sistema nunca foi regulamentado. O país dispõe de uma rede considerável de emissoras educativas e estatais, mas empreendimentos públicos como o da Cultura são raros. Talvez o único, depois que o governo de Michel Temer iniciou o desmonte da concepção pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), processo acentuado no atual governo.


Estamos em ano de eleições nacionais e o tema precisa ser colocado em debate. Comunicação é um direito social e humano, que não só abre as portas, como muitas vezes é imprescindível para o acesso a outros direitos. A pandemia reafirmou isso. Só conseguimos imunizar a população contra a covid-19 graças aos esforços em comunicação que neutralizaram os efeitos nefastos de fake news, negacionismos e discursos de ódio.


Voltando ao caso da TV Cultura...


Em novembro último, apresentei no Congresso Mundial de Sociologia do Esporte, promovido pela Associação Latino-americana de Estudos Socioculturais do Desporto (Alesde), trabalho em que foi abordado o papel da emissora ao abrir espaço em sua grade para torneios de clubes de basquete e de vôlei.


Um movimento iniciado no final da década passada. Que sofreu interrupção, temporária, em 2020, por causa da pandemia de covid-19, que suspendeu as competições. Mas que retomou ano passado e, pelo visto, com a LBF 2022 parece ter se consolidado.


Não é pouca coisa. As emissoras de televisão aberta, quando o assunto é esportes, voltam-se quase que exclusivamente para o futebol. Outras modalidades têm exibição esporádicas, e motivadas por algum interesse comercial pontual - um evento bancado por um patrocinador, ou de maior apelo mercadológico, como as Olimpíadas.


Intitulado “TV Cultura, basquete e vôlei: a mídia de massa e o espaço ao esporte brasileiro”, o trabalho tem seu resumo publicado neste link: “Constata-se que, ao dedicar espaço em sua grade de programação em horário nobre à transmissão das partidas, o canal amplia a visibilidade do esporte, e mobiliza atletas, torcedores, resgata ídolos do passado para atuar como comentaristas e movimenta o jornalismo esportivo”, afirma-se nas considerações finais.


Crédito:Arquivo Pessoal


*Wagner de Alcântara Aragão é doutorando em Comunicação (UFPR), jornalista e professor da rede estadual de educação profissional do Paraná. Mantém um veículo de mídia alternativa (www.redemacuco.com.br), ministra cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e realiza projetos culturais.





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