“Segurança psicológica”, por Marcelo Molnar

Opinião

Marcelo Molnar | 16/03/2022 15:30

Aviões colidem, empresas desabam, pessoas se distanciam e pacientes morrem nos hospitais pelo medo dos indivíduos de se pronunciarem livremente nos ambientes de trabalho e na sociedade em geral. Em um tempo em que os jovens trocaram o desejo de se tornarem astronautas, cientistas e professores para serem influenciadores digitais, tudo o que importa parece ser ter uma opinião segura, uma experiência positiva e uma forte convicção ideológica. Mas o clima bélico de discussão e conflitos vem produzindo um grande volume de profissionais que preferem o silêncio a expor suas opiniões. 


Nos anos 90, a pesquisadora de Harvard, Amy Edmondson, cunhou o termo “segurança psicológica” quando participou, junto a uma equipe de pesquisadores, de um estudo sobre erros de medicação em hospitais. O conceito visava entender as diversas situações em que esses erros normalmente ocorriam. Concluiu que, para o trabalho intelectual florescer, o ambiente deve permitir as pessoas se sintam capazes de compartilharem seu conhecimento. Isso significa dividir preocupações, questões, falhas e ideias malformadas, com transparência e liberdade.


Mas, foi graças a uma matéria na revista The New York Times em 2016, sobre pesquisas do Google que investigavam como se formavam equipes de sucesso, é que se evidenciaram diversos artigos sobre segurança psicológica. A partir daí, a inovação e a tecnologia abraçaram o conceito, concluindo que para “estabelecer objetivos claros e reforçar responsabilidade mútua” todos precisam estar bem psicologicamente. É necessário um clima onde as pessoas se sintam à vontade para se expressarem, sendo elas mesmas.


Crédito:Reprodução

Mas como obter esse ambiente, se atualmente existe uma obsessão para se manter informado? Com dados e informações duvidosas. Sentimos nossas mentes sobrecarregadas com a necessidade de opinar sobre tudo. O resultado são diversos momentos de ansiedade, estresse, insegurança e frustração. O excesso de informações provoca desconcentração e esquecimento e ainda desencadeia outros transtornos mentais. A tecnologia ocupa um espaço essencial e indispensável em nossas vidas, permitindo a informação circular rapidamente em múltiplos canais. As dúvidas viraram fraquezas. Não temos tempo para as reflexões. Tudo aparenta superficialidade, impactando nossa saúde mental. 


A falta de segurança psicológica em empresas cria um clima disfuncional, gerando silêncios quando deveria gerar proatividade. A ausência de troca de ideias e um ambiente inseguro para se expressar sem medo de consequências, gera profissionais desmotivados e provoca desequilíbrios que vão influenciar tanto individualmente como também coletivamente. Afeta a produtividade e resultados da empresa e, consequentemente, produz uma sociedade adoecida.


Afinal, todos esperam uma solução e não uma indecisão. Em um mundo de algoritmos perfeitos, computares rápidos e aplicações de inteligência artificial, as pessoas se sentem fragilizadas. Muitos esquecem que esses recursos tecnológicos vieram para somar e não para substituir nossas competências. Mas vivemos tempos difíceis onde criadores de dancinhas são mais bem remunerados que engenheiros e advogados. Jovens descolados são contratados para substituir profissionais experientes. As ações de startups que dão prejuízos valem mais que empresas que geram lucros e pagam dividendos.


Mas falar de saúde mental ainda é um estigma em nossa sociedade. Por preconceito e falta de informação, 70% das pessoas que sofrem de algum transtorno mental não procuram ajuda. Segundo a OMS, cerca de 31% a 50% da população brasileira pode vir a apresentar pelo menos um episódio de transtorno mental ao longo da vida. Há uma enorme quantidade de notícias disponíveis sobre o tema, mas a grande maioria sem embasamento, acabam causando um desserviço e comprometendo a credibilidade e relevância do cuidado à saúde emocional.


Um levantamento da Funcional Health Tech, feito a partir da análise de aproximadamente 1 milhão de pessoas, distribuídas por todo o Brasil, mostra que nos últimos meses o consumo de medicamentos para ansiedade e depressão cresceu mais de 15%. A pandemia, o isolamento social e, mais recentemente, as notícias sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, só irão contribuir para aumentar esses números. Somos impactados todos os dias pela mídia sobre mortes, violência, inflação, aquecimento global, disputas políticas e quando procuramos entretenimento recebemos jogo da discórdia, ou brigas no futebol. A máquina da comunicação, movida pela atenção e comparação, destrói nossa autoestima.  


Não podemos nem devemos culpar o avanço tecnológico. Temos que repensar nosso comportamento como sociedade. O mundo que construímos e vamos deixar para as futuras gerações é nossa responsabilidade. Precisamos encontrar uma forma de celebrar as pequenas conquistas. Necessitamos de paz. De tolerar as opiniões diferentes. Respeitar nossos próprios erros. Diminuir a vontade de ter e valorizar o que já somos. A solução de muitos problemas está em nós mesmos.


Crédito:Arquivo Pessoal


*Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, com pós graduação em Marketing e Publicidade. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Coautor do livro "O segredo de Ebbinghaus". Atualmente é Sócio Diretor da Boxnet.





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