“Assessor de imprensa é jornalista?”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 26/01/2022 14:01

O ano de 2022 iniciou com novidades para uma antiga discussão: no último dia 3 de janeiro Emmanoel Pereira, ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST), proferiu decisão no sentido de não reconhecer a função do assessor de imprensa como atividade jornalística, destacando que o papel do assessor é aconselhar o cliente sobre como lidar com a mídia, enquanto a função do jornalista é buscar informação e redigir notícias.


Entende-se então, pela decisão, que o assessor é um consultor sênior que fornece conselhos sobre como lidar com a mídia e, usando técnicas de manipulação da mídia, ajuda o cliente dele ou dela a manter uma imagem pública positiva e evitar cobertura negativa; o jornalista, por sua vez, é o trabalhador intelectual cuja função se estende desde a busca de informações até a redação de notícias e artigos e a organização, orientação e direção desse trabalho.


Ato contínuo a essa decisão, o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo (SJSP) protestou e alegou que “o assessor de imprensa produz informações de interesse público”. Ressaltou também que o Ministério da Educação aprovou a inclusão da disciplina Assessoria de Imprensa na grade dos cursos de graduação em Jornalismo e que, na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), há uma convergência em ambas as atividades.


Crédio: Reprodução
Eugênio Bucci, jornalista e professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP, expôs certa vez, num de seus artigos no jornal O Estado de São Paulo, que a origem de tal confusão vem da nossa cultura sindical, pois muitos jornalistas profissionais migraram para as assessorias de imprensa e os sindicatos de jornalistas passaram a ter, entre seus associados, um número cada vez maior de assessores. Segundo Bucci, para não perderem filiados esses sindicatos começaram a representar uns e outros e daí surgiu a noção de que tanto os repórteres como os assessores de imprensa praticam jornalismo, o que para ele é falso, pois se um assessor fosse jornalista, a independência editorial deixaria de ser um requisito para definição dessa profissão. 


Quando se analisa o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), percebe-se que existem inequívocas contradições, pois ele tenta valer tanto para assessores quanto para jornalistas. Uma delas, expressa no artigo 12, diz que “o jornalista deve, ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística (...)”. Ora, se jornalistas têm como obrigação de ofício ouvir sempre muitos envolvidos e existe uma exceção que vale para assessores, como se justifica o mesmo Código para ambos?


Sem dúvida, polêmica é o que não falta para alimentar o debate sobre as atividades de cada profissional, contudo, é interessante notar que pesquisas recentes com jornalistas que trabalham em redação apontam que a maioria - algo em torno de 75% - considera a atividade de assessoria de imprensa como jornalística. A percepção é ainda maior entre os próprios assessores, com mais de 90% deles afirmando que desempenham uma atividade jornalística. 


Muito ainda vai ser discutido sobre o assunto, mas é inegável que, tal qual uma relação biológica mutualística, existe entre as funções do jornalista de redação e dos assessores de imprensa um grau enorme de complementaridade e benefício mútuo. E não há nada que destrua a relação de respeito tão solidamente construída ao longo dos anos. 



Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br




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