“Lições não aprendidas”, por Rafiza Varão

Opinião

Rafiza Varão | 30/11/2021 17:09

Acho que foi Anna Virginia Balloussier, da Folha de S. Paulo, quem primeiro escreveu sobre as semelhanças entre o trabalho dos jornais sobre a morte de Marília Mendonça e a de todos os integrantes dos Mamonas Assassinas, na Serra da Cantareira, em São Paulo, em 1996. Eu estava no segundo ano do curso de Jornalismo, na Federal do Maranhão, quando fomos informados sobre o acidente aéreo fatal com a banda Mamonas Assassinas, um dos maiores sucessos da cena musical na década de 1990, cujo único álbum vendeu mais de 1 milhão e 800 mil cópias no país. 


A comoção foi grande, claro, como costuma acontecer com tragédias que envolvem celebridades e geram uma espécie de luto coletivo. O acidente com Marília Mendonça, também envolvendo um avião de pequeno porte, por mais distante no tempo que possa estar, trouxe à tona procedimentos similares aos de 1996, por parte do jornalismo - mostrando que, talvez, a imprensa brasileira ainda não saiba lidar com esse tipo de acontecimento sem flertar com o sensacionalismo.    

Crédito:Reprodução Folhapress

Naquele tempo, as TVs, sobretudo um SBT mobilizado pelo apresentador Gugu Liberato, realizaram intensa cobertura durante dias a fio. Outros veículos de comunicação seguiram os mesmos passos. Sob o pretexto do jornalismo e do interesse público, as emissoras bateram recordes de audiência e os jornais impressos, ainda longe de sofrerem os impactos da internet, apelavam para informações mórbidas, como relatos sobre os pedaços de corpos espalhados pelo terreno onde o avião dos Mamonas caíra, com vendas movidas por essas notícias. 


A pouca movimentação na web que tínhamos naquele período, não evitou que fotos dos Mamonas se espalhassem por e-mails que carregavam linha após linha imagens tenebrosas. Foram dias de incansáveis suítes, além de um apelo ao sobrenatural, reforçando as previsões daquela que ficou conhecida como Mãe Dinah, e que meses antes havia dito que a banda não ficaria por muito tempo na Terra. Além disso, um vídeo com Júlio Rasec, um dos integrantes dos Mamonas, em que ele citava um sonho com queda de avião, foi divulgado ostensivamente. Tudo isso numa época sem mídias sociais.


Em 2021, há pouco mais de 20 dias, vimos acontecer impropérios de igual envergadura. O corpo de Marília sendo coberto por alumínio; a divulgação de imagens da cantora falando sobre água, cachoeiras; a tematização de programas televisivos sobre a sertaneja (como aconteceu na Globo); e a insistência nas pautas com familiares, mostram que entre 1996 e esse segundo ano da pandemia da Covid-19 o jornalismo brasileiro ainda precisa de mais sobriedade nesses casos. A audiência bateu novos recordes nesses dias. Mas isso não justifica a falta de bom senso (ou mesmo de ética). Celebridades continuam portadoras de direitos mesmo que não possam mais reivindicá-los. Desastres não são espetáculos. 



Crédito:Arquivo Pessoal

*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jorna-lismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especi-almente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Im-prensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.




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