“Nobel da Paz para o jornalismo”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 26/10/2021 07:56


Maria Ressa e Dmitry Muratov são dois nomes emblemáticos. Chegaram a ser chamados de “representantes de todos os jornalistas que defendem o ideal da liberdade de expressão”. Não à toa, ganharam o Nobel da Paz deste ano. Nada mais justo, afinal, coragem não lhes falta.


Vamos aos fatos: Muratov, editor-chefe do jornal investigativo Novaya Gazeta, investigou a corrupção do governo russo, enfrentando ninguém menos do que o poderoso Vladimir Putin; Ressa, cofundadora do site de jornalismo investigativo Rappler, denunciou o abuso de poder, o uso da violência e o autoritarismo nas Filipinas. O que une esses dois jornalistas é uma palavra mágica, tão bem conhecida por todos que querem fazer a diferença no mundo: propósito de vida. O mesmo propósito que, em 1935, fez o jornalista Carl von Ossietzky ganhar o Nobel da Paz por conta das revelações que fez sobre um sistema secreto de rearmamento da Alemanha após a Primeira Grande Guerra Mundial. 


O jornalismo tem sido vilipendiado por incontáveis governos, em nível mundial. Nunca é demais lembrar que, de acordo com a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), em sua edição 2021 do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, o trabalho jornalístico está “gravemente comprometido em 73 dos 180 países e restrito em outros 59, num total de 73% dos países avaliados”. De acordo com a RSF, “esses dados correspondem ao número de países classificados em vermelho ou preto no mapa, ou seja, aqueles em que o jornalismo se encontra, respectivamente, em uma situação difícil ou grave, e aqueles classificados na zona laranja, onde o exercício da profissão é considerado sensível”. Vale lembrar que são cinco as cores usadas: branca, quando o nível de liberdade de imprensa é muito bom; amarela, quando o índice é bom; laranja, quando é problemático; vermelha, quando é difícil; e preta, quando é muito grave.


A RSF também publicou, no último mês de julho, seu relatório “predadores da liberdade de imprensa”, composto por 37 chefes de Estado. Tal como declarou Christophe Deloire, secretário-geral da RSF, “cada um desses predadores tem um método particular. Alguns impõem o terror com ordens irracionais e paranoicas. Outros, criam estratégias baseadas em leis restritivas. Temos de impedir que suas formas de impor a repressão se tornem o ‘novo normal’”.


Crédito:Dvulgação

Nenhuma punição a jornalistas parece ser demasiada, ao que tudo indica, para saciar a ânsia de vingança dos tiranos. Predadores antigos integram a lista macabra da RSF há mais de 20 anos, como o ditador sírio Bachar al-Assad, o supremo guia fundamentalista do Irã, Ali Khamenei, o presidente russo já com status de “czar”, Vladimir Putin, e o último ditador da Europa, o bielorusso, Alexander Lukashenko.


A ausência de liberdade dá margem a abusos como a prisão, tortura e o assassinato seletivo de jornalistas, há décadas, numa clara demonstração de desrespeito e afronta à vida. Igor Domnikov, Yuri Shchekochikhin, Anna Politkovskaya, Stanislav Markelov, Anastasia Baburova e Natasha Estemirova são exemplos de parceiros de trabalho de Muratov que foram assassinados, na Rússia, pelo cumprimento do trabalho. 


Sem dúvida, vivemos numa sociedade que tem acesso à informação, como nunca antes se viu, mas o lado sombrio disso é que há ainda bolsões de desinformação que insistem em reprimir a liberdade de imprensa no mundo. Estar ao lado da liberdade de imprensa é um ato em favor da democracia, que compete a cada cidadão de bem. 


Para finalizar, vale lembrar um bem conhecido texto do teólogo protestante alemão Martin Niemöller, a fim de externar a necessidade de nunca aceitarmos ou sermos coniventes com qualquer tipo de repressão ao trabalho jornalístico, afinal, poderemos ser, nós mesmos, a vítima do amanhã: “um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar”. 


Crédito: Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br





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