“Feitiço do tempo”, por Rafiza Varão

Opinião

Rafiza Varão | 30/09/2021 07:45

A notícia é velha: em abril, o Digital News Report, do projeto Trust in News, da Reuters, indicou que pela primeira vez o consumo de notícias no Brasil pela internet e mídias sociais ultrapassou aquele realizado pela TV que continua, entretanto, sendo o meio de comunicação mais utilizado no país, de acordo com a Pesquisa de Mídia, da Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República. Ainda de acordo com o Digital News Report, o jornal impresso, veículo mais associado ao jornalismo tradicional, vem assistindo a seu rápido declínio e hoje, em comparação ao ano de 2013, perdeu mais da metade dos 50% que diziam ler jornais então.


Os jornais impressos, como se sabe, foram os grandes propulsores da profissionalização dos “escritores de notícia” no início do século anterior, contribuindo para a especialização do trabalho, que passou a ter demandas muito específicas e um distanciamento, em sua produção, do “homem comum”. Era um sinal dos tempos essa profissionalização, decorrente do comércio de informações e da industrialização da comunicação. Ainda assim, não se pode considerar que tudo que os jornais vendiam era notícia e que não houve espaço para conteúdos inverídicos em suas páginas -- e sempre precisamos de certo senso crítico para distinguir o que poderia ser considerada informação relevante e de notório interesse público da mera especulação, interesse privado, sensacionalismo ou gossip barata. 


Nos últimos anos, temos assistido a um esforço por vezes hérculeo para disseminar esse mesmo senso crítico diante do fenômeno das fake news e de todo o ecossistema de desinformação que se prolifera justamente no agora principal meio de consumo de notícias indicado pelo Digital News Report de 2021: as mídias digitais. Ironicamente, esses mesmos espaços se tornaram uma espécie de motor que gira ao contrário quanto à informação profissional. Muitas vezes, não se sabe com certeza de onde surgiu um boato, mas ele pode interromper até campanhas de vacinação. E, de muitos modos, o jornalismo não vem dando conta de frear o estrago. Desse modo, cabe uma pergunta importante quanto ao último Digital News Report: o que será que os pesquisados definem como notícia?  


Há uma pequena pista no relatório, que acena como que de uma janela translúcida para aqueles que já há um tempo vem tentando desemaranhar o novelo da desinformação no Brasil, e que aparece no ranking de confiança de marcas. Alguns veículos que antes seriam entendidos como de independência duvidosa agora figuram no topo da lista daqueles que mais inspiram credibilidade. 

Crédito: Reprodução
Lista de empresas jornalísticas com maior índice de confiança entre os brasileiros, segundo o Digital News Report.


O gráfico ainda pode levar à inferência de que a onda de desinformação acabou definindo, de modo torto, o que pode ser considerado credível ou não, o que coloca novamente a importância de se entender o que os pesquisados compreendem como notícia. Não é exatamente o que os jornalistas profissionais entendem como material noticioso e também nem sempre equivale ao que chamamos de fake news. 


Mas por que só agora falar nos pequenos resultados sobre o Brasil mostrados no Digital News Report? Porque o que ele nos disse no começo desse ano diz sobre o futuro. Porque 2022 se aproxima e precisamos rememorar as lições aprendidas em 2018 sobre a força das mídias sociais em tempos de eleições ou pelo menos buscar aprender sobre os fenômenos de comunicação que extrapolam o jornalismo tradicional. A desinformação como arma política parece ter ainda uma longa história para escrever neste século que já não é mais tão novo. Urge romper a bolha e começar a compreender melhor o que está lá, na agora primeira fonte de acesso a informações, seja ela portais de notícias ou pseudonotícias on-line ou mesmo no WhatsApp. Como? Ainda não sei. Mas devemos nos questionar. Onde o jornalismo vai se situar? Repetiremos os mesmos equívocos de cobertura (como achar que seu impacto continua decisivo e demolidor diante de “fatos alternativos”; como dar voz à improbidades; como recorrer cada vez mais ao declaratório), sem levar muito em consideração os aspectos complexos do mundo pós mídias sociais, presos num feitiço do tempo? O que podemos fazer? Talvez e muito provavelmente, os públicos continuem a identificar fake news com news (e, que loucura, vice-versa). Mas é preciso pensar e agir. Quem avisa, amigo é. Antes cedo do que tarde. É necessário pensar no ano que vem. 


Crédito:Arquivo Pessoal

*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jorna-lismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especi-almente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Im-prensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.



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