“Existe salvação para a imagem do Brasil?”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 25/09/2021 08:30

Alguns dizem que imagem é uma espécie de cartão de visitas para fazer negócios em qualquer parte do mundo. Outros repetem, à exaustão, a frase “uma imagem vale mais do que mil palavras”. De fato, essa preocupação e interesse com o tema são legítimos, afinal, a percepção da realidade, construída graças ao que vemos e lemos pela mídia, costuma ser uma janela para o mundo, criando ou cristalizando díspares pontos de vista. O problema é que as imagens fazem parte de um discurso polissêmico e incontrolável, e, como o próprio nome diz, fazem parte do ‘imaginário’ coletivo. 


Quando se fala em “Brasil”, convenhamos, as associações não são nada positivas, a começar pelo fato de que o governo federal não inspira confiança e respeito na comunidade internacional, o que confere a sensação de vivermos numa nação em franco declínio. O discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, no último dia 21 de setembro, e as cenas protagonizadas por ele e sua comitiva em Nova York, passaram a ser amplamente divulgados pela mídia, expondo ao planeta as mazelas e vergonhas de nossa sociedade. 


"Venho aqui mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões", bradou Bolsonaro na ONU. Em seguida, continuou: “O Brasil mudou, e muito, depois que assumimos o governo em janeiro de 2019. Estamos há 2 anos e 8 meses sem qualquer caso concreto de corrupção. (...) Na Amazônia, tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior. Qual país do mundo tem uma política de preservação ambiental como a nossa? (...) Sempre defendi combater o vírus e o desemprego de forma simultânea e com a mesma responsabilidade. As medidas de isolamento e lockdown deixaram um legado de inflação, em especial, nos gêneros alimentícios no mundo todo. (...) Apoiamos a vacinação, contudo o nosso governo tem se posicionado contrário ao passaporte sanitário ou a qualquer obrigação relacionada à vacina. Desde o início da pandemia, apoiamos a autonomia do médico na busca do tratamento precoce (...).


Crédito:Reprodução/Twitter

Poder-se-ia aqui reproduzir cada parágrafo do discurso apontando a visão fantasiosa de nação que se pretendia vender ao mundo, a começar pela ausência de corrupção, pela apologia ao uso de medicamentos ineficazes para o tratamento precoce da covid-19 ou ainda pelo suposto protagonismo na defesa dos povos indígenas ou pelo combate ao desmatamento da Amazônia. Mas o espetáculo não parou por aí. A imagem de Bolsonaro e sua comitiva comendo pizza em pé na sarjeta, por ser impedido de entrar em restaurantes (já que o presidente recusa a vacina); e a imagem do ministro da Saúde Marcelo Queiroga xingando manifestantes e mostrando o dedo do meio, bem como do chanceler Carlos França fazendo a esses mesmos manifestantes o sinal da tradicional “arminha” (que identifica bolsonaristas armamentistas) são indícios do mais absoluto descontrole e descompostura. Não bastasse tudo isso, Queiroga ainda foi diagnosticado com Covid-19 e teve de ficar em quarentena nos Estados Unidos.


Estudo feito em 2020 pela Curado & associados, consultoria especializada em gestão de imagem e reputação, analisou textos de 7 relevantes veículos internacionais:  The New York Times e The Washington Post (Estados Unidos), The Guardian e The Economist (Inglaterra), El Pais (Espanha), Le Monde (França) e Der Spiegel (Alemanha). Das 1.179 matérias publicadas, 1.088 foram negativas (92%) e 91 foram positivas (8%) ao governo brasileiro, que foi classificado como irresponsável e incompetente na gestão da pandemia, no desmatamento da Amazônia e por conta das ameaças que faz à democracia.


Nada disso, contudo, parece que abala o governo federal, e a nossa realidade já há tempos confunde-se com a ficção. Se há salvação para a nossa imagem, só o tempo dirá. Infelizmente, hoje, o país de Oswaldo Aranha - ministro de Relações Exteriores do governo Getúlio Vargas e responsável pela honraria do Brasil em abrir os discursos da Assembleia Geral da ONU - é motivo de escárnio e desprezo em nível mundial. 



Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br




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