“Talibã e o espetáculo midiático”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 25/08/2021 19:11

No último dia 15 de agosto o mundo assistiu, atônito, ao retorno dos talibãs ao poder, no Afeganistão. O rápido avanço das tropas do grupo fundamentalista islâmico e a conquista da capital, Cabul, pôs fim a quase vinte anos de ocupação norte-americana. O objetivo dos Estados Unidos, em 2001, era punir o grupo por ter dado abrigo a Osama Bin Laden e à sua rede terrorista, Al-Qaeda, que executou os ataques de 11 de setembro de 2001. Mas a sensação que fica é que o dinheiro investido – mais de um trilhão de dólares – e as perdas humanas pouco valeram. Estima-se que mais de 2,3 mil militares americanos morreram e cerca de 20 mil ficaram feridos. Mas foram os afegãos que mais sofreram, com mais de 60 mil mortes nas forças de segurança e quase o dobro de civis.


Embora a saída estadunidense do Afeganistão já tivesse sido negociada na administração de Donald Trump, coube ao governo de Joe Biden a desastrada execução da retirada, que já é considerada um dos maiores fiascos de todos os tempos. As imagens que rodaram o mundo dão a nítida sensação de um completo despreparo na condução do tema. E isso é muito grave, pois vivemos numa sociedade do espetáculo, em que a força imagética e seu poder de mobilização e convencimento da opinião pública é o que realmente contam. O discurso midiático espetacularizado e espetacularizador, como nos ensina Baudrillard, são os vetores de mobilização da sociedade, e a teatralização que as mídias têm ao narrar os acontecimentos é o que acaba por verdadeiramente envolver o espectador. E é aí que está o cerne do problema, afinal, os talibãs estão infringindo uma derrota inimaginável aos Estados Unidos.


Imagens em vídeo mostraram, logo no início da reconquista de Cabul, combatentes talibãs ocupando o palácio presidencial, sentando na cadeira do ex-presidente Ashraf Ghani e posando com armas. Não satisfeitos, postaram em redes sociais, em tom de zombaria, o uso da academia de ginástica do palácio. O pior, contudo, ainda estava por vir: as cenas de caos no aeroporto de Cabul e os helicópteros retirando às pressas diplomatas americanos lembraram a derrota no Vietnã, há mais de quatro décadas, quando os comunistas entraram em Saigon. Essa ferida aberta, com sequelas físicas e emocionais, levou muitos críticos do atual governo democrata dos Estados Unidos a chamarem a situação de “a Saigon de Joe Biden”. Nunca é tarde para lembrar que Biden, antes de todo essa situação, havia declarado que “não havia nenhuma chance de uma saída às pressas, como a que ocorreu no Vietnã”. 


Crédito:CNN / Defense One / Reuters
Centenas de afegãos dentro do avião militar dos EUA

O aeroporto de Cabul se transformou, literalmente, em um estúdio de TV a céu aberto, que funciona 24 horas, 7 dias por semana, com potencial de desmoralizar ainda mais o incipiente governo de Biden, já que milhares de pessoas se aglomeram na esperança de conseguir deixar o país. Cenas como a de uma pessoa que caiu após a decolagem de um avião militar norte-americano, depois de se pendurar na sua parte externa, chocaram o mundo. O que dizer, então, da cena de mães afegãs escalando uma cerca de arame farpado e entregando os seus filhos pequenos a soldados norte-americanos? E as cenas do compartimento interno dos aviões, com capacidade para 130 ocupantes, saindo com mais de 600 pessoas desesperadas a bordo? 


Imagens e mais imagens que revelam uma completa falta de gestão de crise, a começar pelo fato de que o Pentágono, o Departamento de Estado e os serviços de inteligência não conseguiram sequer prever o rápido avanço do Talibã. 


“Nós faremos tudo o que pudermos para garantir uma evacuação segura para nossos aliados afegãos, parceiros e afegãos que possam ser alvo do Talibã devido à sua associação com os Estados Unidos”, disse Biden numa de suas coletivas de imprensa. Dá para acreditar? A única certeza que se pode ter, à medida em que nos aproximamos do aniversário de 20 anos dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, é que a lembrança do próximo 11 de setembro terá um duplo sabor amargo para os Estados Unidos, com a vitória do Talibã no campo de batalha territorial e midiático.


Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br




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