“Memória do telejornalismo também é vítima do incêndio da Cinemateca e do leilão de fitas da TV Manchete”, por Wagner de Alcântara Aragão

Opinião

Wagner de Alcântara Aragão | 19/08/2021 08:42

O incêndio no depósito da Cinemateca Brasileira na Vila Leopoldina, em São Paulo, e o leilão do acervo da TV Manchete dizem respeito diretamente à memória do jornalismo, também.


Das toneladas de materiais queimadas pelo fogo na Cinemateca fazem parte cinejornais e conteúdos da TV Tupi. Já as fitas da TV Manchete incluem, além de obras icônicas da dramaturgia, reportagens singulares do programa Documento Especial.


O incêndio no depósito da Cinemateca ocorreu em 29 de julho. Em 7 de agosto, em várias cidades houve atos contra o descaso do governo federal para com a instituição responsável pela preservação do audiovisual nacional.


Crédito: divulgadas pelo Corpo de Bombeiros de São Paulo
Imagem do acervo no incêndio da Cinemateca em 29 de julho

Por sua vez, o leilão do acervo da TV Manchete era para ter ocorrido entre os dias 3 e 19 de maio. Não houve interessados, segundo reportagem da Revista Piauí, e uma nova data ficou de ser marcada.


Não é possível que vamos deixar nosso patrimônio cultural, jornalístico e histórico se esvair assim. O que podemos fazer, além de irmos à porta da Cinemateca e de nos manifestarmos pelas redes sociais? Como podemos evitar que as fitas da Manchete fiquem à mercê do “quem pagar mais, leva”, sem nenhuma contrapartida social?


Afinal, os bens guardados pela Cinemateca, as produções da extinta Manchete, são mais, bem mais que produtos, mercadorias, de autorias e direitos de propriedade específicos. Sim, tais direitos devem ser observados e respeitados, mas não podem se sobrepor ao direito à memória – direito coletivo.


Além do citado Documento Especial, estão fitas com coberturas dos desfiles das escolas de samba feitas pela TV Manchete. Aliás, no que a emissora era craque. Até hoje, entre os aficionados em Carnaval, as transmissões da Manchete são tidas como icônicas, pela competência dos repórteres, da equipe de narração e de comentaristas, pelas tomadas das imagens. 


Estão também prestes de serem leiloadas fitas das novelas Pantanal, A História de Ana Raio e Zé Trovão, Kananga do Japão e Dona Beija; minisséries como Marquesa de Santos e O Canto das Sereias; o humor do Cabaré do Barata, só para citar alguns exemplos.


Reitere-se: são bens culturais, de interesse público. Expressam concepções estéticas e artísticas; enredos e conteúdos que são obras de seus realizadores, mas são a síntese de uma sociedade em uma época. Da nossa sociedade.


As toneladas de papeis e fitas queimadas pelo fogo no galpão da Cinemateca na Vila Leopoldina não são apenas escritos e filmagens de pessoas, grupos e instituições. São documentos, que materializam o que fizemos, pensamos, difundimos, criamos...


O acervo da TV Manchete, os arquivos da Cinemateca Brasileira são uma parte da gente.


Destruí-los é um processo de automutilação.


Crédito:Arquivo Pessoal


*Wagner de Alcântara Aragão é doutorando em Comunicação (UFPR), jornalista e professor da rede estadual de educação profissional do Paraná. Mantém um veículo de mídia alternativa (www.redemacuco.com.br), ministra cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e realiza projetos culturais.




Leia também

“O inaceitável comportamento das redes sociais diante dos questionamentos feitos a seu papel”, por Wagner de Alcântara Aragão

Em possível revide, governo edita portaria que prejudica Fundação Roberto Marinho

“Os desafios da comunicação acessível e inclusiva”, por Roberta Lippi


Crédito: