“Medalhas, respeito, dignidade e oportunidade”, por Rafiza Varão

Rafiza Varão | 16/08/2021 16:15

Quero começar com uma imagem, que talvez pertença ao imaginário de todos aqueles da minha geração ou das anteriores que cresceram com a cobertura jornalística dos jogos olímpicos: o quadro de medalhas, com o topo invariavelmente composto por países capitalistas ricos, europeus ou não, ou nações socialistas, europeias ou não. A marcante Olimpíada de Moscou, em 1980, teve esse quadro um pouco alterado, com os Estados Unidos boicotando o evento, a pedido de seu presidente Jimmy Carter. A despeito da ausência dos estadunidenses na competição, os resultados seguiram o script, com países fora do bloco do que se chamava Primeiro Mundo conquistando poucos galardões de metal. O Brasil, por exemplo, voltou para casa com dois ouros e dois bronzes, um destes últimos sob controvérsia, envolvendo o célebre João do Pulo. Para efeitos de comparação, União Soviética e Alemanha Oriental, juntas, ganharam nada menos que 328 medalhas. 


Crédito:Reprodução Memória Globo
Quadro de medalhas da Olimpíada de Moscou, 1980.

Como criança, ainda envolta em um mundo mágico e mítico, aqueles números, que mostravam nosso país tão lá embaixo, se uniam à simbologia do esporte que eu iria compreender apenas muitos anos depois, já no mestrado em Comunicação, na Universidade de Brasília. Na época, escrevi um trabalho sobre a mitologia do esporte atravessando o jornalismo, o arquétipo do herói (representado no tenista Gustavo Kuerten) e a cosmogonia em que somos inseridos quando adentramos o campo dos campeonatos internacionais. Era uma pesquisa bem simples, requisito para aprovação em disciplina, mas ali compreendi a força das imagens esportivas e como elas nos dizem quem nós somos e quem podemos ser. Também foi ali que, sob inspiração do psicólogo Carl Gustav Jung, compreendi que, para além do simbolismo, sermos alijados ou inseridos na batalha por títulos esportivos também dizia algo sobre o cotidiano material que nos cerca e que nos fala sobre as tramas do social. As competições, seguindo a ordem mítica, nos falavam de quem podia ocupar ou não o Olimpo, a morada dos deuses. Mas também nos diziam sobre QUEM poderia se tornar um deles. 


Na imaginação infantil, entretanto, esse tornar-se não era um construto. Ao olhar o quadro de medalhas, seguidamente, o que eu entendia (e também o que o noticiário me dizia) era a superioridade daqueles países, e a inferioridade do meu. Só quatro medalhas. E, ainda assim, para conquistá-las, era necessário cumprir, de forma obsequiosa, a trajetória do herói: matar leões, derrubar gigantes. Tudo isso movido por um dom especial, por uma escolha sobrenatural.  


Entretanto, há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a vã filosofia de uma criança sentada em frente à televisão, há 40 anos. E talvez seja chegada a hora de abrandar o discurso mitológico na cobertura jornalística esportiva, e voltar a atenção não apenas para os símbolos cosmogônicos que nos são caros, mas à geopolítica e às políticas públicas que fazem com que cada conquista de atletas brasileiros seja vista como milagrosa ou como o resultado do cumprimento esperado da trajetória do herói (quem vence comeu o pão que o diabo amassou ou surfou em tampas de isopor). É preciso escancarar a realidade.


Alicia Klein nos fala, por exemplo, do descaso com os esportistas em nosso país. De acordo com a colunista do UOL, “dos 309 atletas em Tóquio, 42% não tem qualquer patrocínio, 13% fizeram vaquinha para chegar lá, 10% não vivem do esporte, cinco deles são motoristas de aplicativo. Essa é a realidade dos melhores atletas do país. Imagina o resto”. Nossos atletas chegam às Olimpíadas apesar do Brasil, envoltos na superação (real) de barreiras que não deveriam existir. A exaltação da superação individual, todavia, não os favorece, apenas reforça outro mito: o da meritocracia. Mas quantos brasileiros a mais poderiam estar no pódio? Volto ao quadro de medalhas e compreendo: não é superioridade, nem heroísmo; é investimento, reconhecimento. Respeito. Dignidade e oportunidade. 


A verdade é que depois da Idade Antiga, ninguém mais avistou aqueles que se sentavam no topo do monte Olimpo, infinitamente superiores aos mortais. A cobertura esportiva deveria se lembrar disso e assumir uma posição mais crítica, se não de forma majoritária (pois precisamos da simbologia da batalha), pelo menos de modo mais recorrente. Os brasileiros trouxeram 17 belas e aplaudidas medalhas. Os Estados Unidos, que dessa vez não boicotaram as Olimpíadas, 113.


Crédito:Arquivo Pessoal

*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jorna-lismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especi-almente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Im-prensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.



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