“Cuba não é para amadores”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 29/07/2021 09:11

Certa feita, Nelson Rodrigues disse que “não há nada mais cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem”. Essa provocação faz todo sentido, afinal, pessoas que se entregam à inépcia causada pela alienação estão condenadas eternamente à prisão perpétua da falta de consciência em relação à realidade. 


Defender o regime totalitário cubano é uma paixão política que não tem respaldo, por mais bem formulado que seja o argumento. Inflação galopante, apagões elétricos constantes, escassez de alimentos, medicamentos e produtos básicos, aliados à paralisação do turismo por conta da pandemia, têm sido um fardo pesado demais para a já combalida vida econômica e social da ilha. Gritos por liberdade e pelo fim da ditadura voltaram a ressoar em várias regiões, algo que não se via com tamanha veemência nas últimas seis décadas. E, na mesma proporção em que os protestos se espalhavam, crescia a repressão à imprensa e a disseminação das mentiras oficiais do governo.


Segundo levantamento do Instituto Cubano por la Libertad de Expresión y Prensa (ICLEP), em janeiro de 2021 houve um aumento de 124% nas violações contra a liberdade de imprensa no país, sendo que 55% delas correspondem a detenções arbitrárias, método repressivo mais utilizado para privar a sociedade do seu direito à informação. Para Normando Hernández, diretor geral do ICLEP, esses abusos mostram que os jornalistas estão totalmente indefesos e que “a profissão jornalística é criminalizada e as violações da liberdade de imprensa são normais”. Não bastasse tudo isso, jornalistas também são chamados para comparecer a delegacias, sofrem despejos ilegais, agressões físicas, difamação e são proibidos de sair do país.


Crédito:Reprodução Gazeta do Povo e Agência EFE

A campanha de violência estatal, em Cuba, é endossada pela desinformação e, à medida em que os protestos se espalhavam no mês de julho, o presidente Miguel Díaz-Canel, fiel discípulo da família Castro, usou redes de rádio e TV para pedir, num ato irresponsável de confrontação, que seus apoiadores saíssem às ruas. Disse ele: "estamos convocando todos os revolucionários do país, todos os comunistas, a tomarem as ruas e irem aos lugares onde essas provocações acontecerão. Estaremos prontos para tudo e combatendo nas ruas. Sabemos que neste momento há uma massa revolucionária nas ruas fazendo frente a isso e não vamos admitir que nenhum contrarrevolucionário, nenhum mercenário, nenhum vendido ao governo dos Estados Unidos e ao império, recebendo dinheiro das agências e se deixando levar por todas as estratégias de subversão ideológica, desestabilize nosso país. Há um setor delinquente e a marcha não foi pacífica, apedrejaram forças policiais, tombaram carros. Um comportamento totalmente vulgar, indecente, delinquente. (...) Haverá uma resposta revolucionária com determinação, firmeza e coragem”.


Como de praxe, a ditadura cubana tenta imputar a um inimigo externo, no caso os Estados Unidos, todos os males que afligem a combalida ilha, começando pelo embargo econômico e passando pelas campanhas #SOSCuba e #SOSMatanzas. 


Atualmente, contudo, boa parte da população tem acesso à Internet e, especialmente, a redes sociais como o Facebook, Twitter e Instagram, que debatem temas geralmente ausentes nos meios de comunicação estatais. Por meio das redes sociais foi possível mostrar ao vivo, para todo o mundo, as manifestações e o clamor por mudanças. Diante da nova realidade midiática o regime bloqueia a Internet e aproveita para agredir e silenciar as vozes dissonantes.


Não é de hoje que a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) apresenta seu relatório especial sobre a situação da liberdade de expressão em Cuba e que, infelizmente, as conclusões são sempre as mesmas, ou seja: “exercer o jornalismo em Cuba não se compara nem de perto com a situação em qualquer outro país da região, pelos sérios riscos enfrentados pelos jornalistas e outros grupos da população que buscam expressar opiniões, pela inexistência de acesso à informação pública, bem como pelo temor da população e daqueles que eventualmente podem ser fontes de informações para os jornalistas, dentre outros múltiplos obstáculos”.


A História ensina que governos opressivos têm os dias contados, em qualquer parte do mundo. Enquanto perduram, contudo, cabe-nos denunciar suas mazelas e lutar pelo respeito aos direitos humanos, pela liberdade de expressão e por direitos políticos legitimados pela realização de eleições livres e baseadas no sufrágio secreto e universal. 


Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br





Leia também

“Prezado jornalista: o Planalto não tem nada a comentar”, por Sergio Bialski

Jornalistas são presos por cobertura dos protestos em Cuba; SIP reage

Cuba: E agora?