“Prezado jornalista: o Planalto não tem nada a comentar”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 28/06/2021 11:57

Não deve ser fácil assumir a função de Secretário de Comunicação da Presidência da República, sobretudo num país como o Brasil, em que o lema de relacionamento com a imprensa passou a estampar a frase: “Prezado jornalista, o Planalto não tem nada a comentar”. Essa é uma das respostas mais comuns a questionamentos feitos por veículos nacionais e estrangeiros à Secretaria Especial de Comunicação Social, a Secom. 


Fábio Wajngarten nunca entendeu direito como funciona esse relacionamento, estimulando o enfrentamento e adotando a postura oficial de não responder às demandas. Nomeado em abril de 2019, foi exonerado sem sequer completar 2 anos no cargo. Até que durou muito. Não fosse o apreço da ala ideológica, que inclui os filhos do presidente, nunca deveria ter assumido, afinal, como diz Cid Benjamin, vice-presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), “a falta de transparência é algo que limita o exercício da democracia”.


Crédito:reprodução

Chama a atenção a mudança radical de postura do Planalto, que no início do governo, por meio do general Otávio Rêgo Barros, lia boletins e respondia diariamente as perguntas. Já sob o comando do general Carlos Alberto dos Santos Cruz havia cafés da manhã com a imprensa, prática esta interrompida em 2019. Com a ausência de um porta-voz à altura do cargo e com o fim dos cafés da manhã, Bolsonaro passou a falar na entrada do Palácio da Alvorada e, diante de perguntas incômodas e não favoráveis, passou a agredir verbalmente os jornalistas, mandando-os calar a boca. 


O próprio general Santos Cruz, que deixou o governo em junho de 2019, chegou a afirmar que a relação com a imprensa deveria ser baseada no respeito e na transparência. Disse ele: “isso é o mínimo que tem que ter, 100% de transparência. Você está lá para servir a população e uma das maneiras de servir é informar. Isso não é favor, é obrigação. Tudo é com dinheiro público. As coisas são muito simples. Não precisa ter grandes estratégias para você ser honesto, transparente e educado”.


O bom senso das palavras do general contrasta com a postura de Wajngarten e de Bolsonaro. Entrevistas coletivas dentro do Palácio do Planalto, cerceamento à divulgação da agenda presidencial, perguntas em número limitado e privilégios a alguns veículos de comunicação passaram a ser a tônica. Sem esquecer, é claro, do incitamento a apoiadores para que hostilizem a imprensa. E, para quem ainda duvida de tudo isso, basta prestar atenção em algumas declarações feitas pelo Presidente da República, no exercício de sua função:


“Não tenho que dar entrevistas. Não tenho que responder perguntas de muitos idiotas".

"Quase toda a imprensa me atacou dizendo que desprezo a vida. Eu não dou bola para isso”.

“Onde é que tem vacina para atender todo o mercado aqui e em todo o lugar do mundo? Responda! Para de fazer pergunta idiota, pelo amor de Deus”. 

“Nasça de novo você! Ridículo, ridículo! Está empregada onde? Pelo amor de Deus! Vamos fazer pergunta inteligente, pessoal”.

“Infelizmente, somos obrigados a dar uma boa notícia, mas não é tão boa assim não. É uma quadrúpede”.

“Essa Globo é uma m*rda de imprensa! Vocês são uma porcaria de imprensa! Cala a boca, vocês são uns canalhas! Vocês fazem um jornalismo canalha, que não ajuda em nada. Vocês destroem a família brasileira, destroem a religião brasileira. Vocês não prestam! A Rede Globo não presta! É um péssimo órgão de informação! Se você não assiste a Globo, você não tem informação. Se assiste, está desinformado. Você tinha que ter vergonha na cara de prestar um serviço porco que é esse que você faz na Rede Globo”.

"Minha vontade é encher a tua boca com uma porrada, tá? Seu safado!"

"Olha, eu chego como eu quiser, onde eu quiser. Eu cuido da minha vida. Se você não quiser usar máscara, não use. Agora, tudo o que eu falei sobre Covid, infelizmente, para vocês, deu certo".

“Ela queria 1 furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”.

“Tem que entrar de novo numa faculdade que presta e fazer um bom jornalismo. E não contratar qualquer um pra ser jornalista, perguntando besteira por aí e publicando coisa nojenta”.

“É uma canalhice o que vocês fazem. Vocês não prestam e esculhambam a família brasileira 24 horas por dia”.

“Você tem uma cara de homossexual terrível. Mas nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual”.

“Isso é uma patifaria! Cala a boca, eu não perguntei nada! Folha de São Paulo: um jornalismo patife e mentiroso”.

“Sempre fui atleta das Forças Armadas. Aquela história de atleta, que o pessoal da imprensa vai para o deboche, mas quando (a Covid) pega num bundão de vocês a chance de sobreviver é bem menor”.

“O maior problema do Brasil não é com alguns órgãos, é a imprensa. É gente que não tem caráter”.

“Parem de mentir, pessoal, tomem vergonha na cara. Vocês atrapalham o Brasil com este tipo de notícia. Eu tenho vergonha de vocês. Fazer um jornalismo dessa maneira”.

“Dois milhões e meio de latas de leite condensado... Vai para a p*ta que pariu! É pra enfiar no r*bo de vocês essas latas de leite condensado toda”.

“Essa imprensa jamais estará do lado da verdade, da honra e da lei. Sempre estará contra vocês. Pensem dessa forma para poder agir”.


Decoro e diálogo fazem parte do exercício de qualquer função, especialmente da Presidência da República. Não é aceitável, portanto, que qualquer governo se oponha à missão de busca da verdade e informação ao cidadão, que caracterizam a atividade jornalística. Enquanto a liberdade de imprensa prevalecer, a democracia será reinante e garantirá a luta permanente por uma sociedade mais justa e fraterna.


Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br



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