“Notícias geram dados & dados geram notícias”, por Marcelo Molnar

Opinião

Marcelo Molnar | 16/06/2021 08:37

Durante muito tempo acreditamos que notícias eram fontes de conhecimento. Robert E. Park produziu um artigo em 1940 denominado: News as a form of knowledge (A notícia como forma de conhecimento) situando o jornalismo em algum lugar do continuum entre a familiaridade com e o conhecimento sobre. 


No mundo atual, as notícias assumem um caráter efêmero onde é difícil aceitarmos, sem questionamentos, que elas apresentem conteúdos fundamentados e bem-intencionados. Afinal, estamos na era das Fake News, da desinformação, da interpretação favorável, da distorção mentirosa, entre tantas outras formas de transmitir inverdades. Em outros tempos escondíamos, protegíamos e guardávamos as informações valiosas. Hoje misturamos, embaralhamos e camuflamos de tal forma que é difícil identificar, encontrar e separar o joio do trigo. É possível acreditar que as notícias são fontes de conhecimento?


Um dos caminhos encontrados para diferenciar versões de fatos, foi utilizar dados como forma de evidência e comprovação.  O termo em inglês “Data-Driven Journalism” foi criado e começou a ser difundido em 2009 para designar as iniciativas de produção de notícias a partir de dados estruturados nos Estados Unidos. Seus conceitos e formas foram adaptados aos diferentes idiomas nos anos seguintes. 


Mais do que o “Jornalismo de Dados”, dedico atenção aos diversos volumes de dados que ele gera. Vou além da crescente participação dos dados numéricos que são usados na produção e distribuição de informações. Falo inclusive do aumento das interações entre produtores de conteúdos com vários outros campos, como do design gráfico, da ciência da computação e da matemática e estatística.


Crédito:Instituto de Pesquisa IDEIA
Pesquisa Hábitos de Mídia do Brasileiro realizada em maio de 2021 para o Mídia.JOR - Futuras Gerações

Se antes acreditávamos na subjetividade dos índices de audiência, hoje nos confortamos com números de visualizações, engajamentos, likes, compartilhamentos, emojis e tantas outras métricas difundidas no universo digital. 


De acordo com o professor André Karam Trindade “Contra fatos não há argumentos”. Uma máxima que já foi slogan de campanhas publicitárias, parte da premissa de que a argumentação é inútil e, portanto, dispensável diante de determinados fatos. Muitas vezes busca-se impedir toda e qualquer forma de objeção. Uma tentativa de esvaziar retoricamente o contraditório. Algo do tipo: “não importa o que você vai dizer” ou “nem adianta querer explicar”, pois “o fato, por si só, já diz tudo”. 


Por outro lado, o jornalista Marcelo Soares, graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul afirma que “torturados, os números dizem qualquer coisa”. A manipulação só é possível porque os números, por trajarem o alvo manto do fato irrefutável, são dotados de um incrível poder. No livro “Os Números (Não) Mentem”, o autor Charles Seife, mestre em matemática pela Universidade de Yale, define o conceito: trata-se da “arte de empregar argumentos matemáticos enganosos para provar algo que nosso coração diz ser verdade – ainda que não seja”. 


Muitas pesquisas são usadas em ações oportunistas permitindo aos jornalistas manter alguns assuntos em pauta, mesmo quando não há notícia, o que os liberta da “cronologia nada ideal dos eventos autênticos”. Seife reitera que, enquanto narram a disputa como “uma corrida de cavalos”, ajudam a distorcer a realidade. O problema é o uso de dados tecnicamente frágeis ou, o que é pior, com viés intencional para fundamentar um objetivo desejado. É preciso estar atento para o fato de que torcer os números pode ser um bom negócio.


Mais que conhecimentos, as notícias em forma de textos ou dados, devem ser tratadas como fontes de informação e reflexão. Contra os fatos há sim argumentos, não apenas para contradizer, mas também para contextualizar. Em um mundo atual em que usamos de ferramentas de Inteligência Artificial como Machine Learning onde os computadores têm a capacidade de aprender de acordo com as respostas esperadas por meio associações de diferentes conteúdos, podemos construir verdades e falácias com os mesmos dados.


Se antes nos preocupávamos com o analfabetismo, funcional ou não, hoje temos que dobrar a atenção com a capacidade analítica dos indivíduos. O desenvolvimento do pensamento crítico, obrigatoriamente deve ser estimulado. A habilidade de lidar com informações de fontes diferentes e estabelecer correlações entre elas, pode parecer ser algo simples e natural, mas infelizmente não é uma verdade para toda a sociedade. A evolução tecnológica resolveu muitos problemas, mas criou outros desafios. Temos uma grande oportunidade nas mãos ao juntar aptidões das ciências humanas com o pragmatismo lógico. Só assim venceremos a cultura da polarização e o maniqueísmo impregnado que vivemos atualmente.



Crédito:Arquivo Pessoal



*Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, com pós graduação em Marketing e Publicidade. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Coautor do livro "O segredo de Ebbinghaus". Atualmente é Sócio Diretor da Boxnet.  





Leia também

“Deus não joga dados....será?”, por Marcelo Molnar

Pesquisa aponta desafios para aproximar jornalismo do público jovem e combater fake news