“A vergonha Lukashenko”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 28/05/2021 07:01

O presidente e ditador de Belarus, Alexander Lukashenko, protagonizou no último dia 23 de maio um dos mais sórdidos e ousados episódios de perseguição à liberdade de imprensa já vistos nos últimos tempos. Utilizando como pretexto uma suposta ameaça de bomba num voo da Ryanair, que seguia para a Lituânia, enviou um caça para interceptá-lo e forçá-lo a um pouso de emergência em Minsk, capital de Bielorus. Motivo: a presença, no voo, de Roman Protasevich, um jornalista crítico do regime.


Mandar um avião de guerra para interceptar uma aeronave comercial e forçar o pouso, a fim de prender um dissidente do regime, constitui um ato sem precedentes. A própria Organização Internacional da Aviação Civil das Nações Unidas (OACI) afirma que o incidente pode ter violado a Convenção de Chicago, de 1944, que é o tratado fundador da aviação civil internacional.


Crédito:Reprodução
Mas, para além dos aspectos legais da aviação, o jovem jornalista, de 26 anos, foi exibido, em um vídeo perturbador, confessando sua participação em manifestações antigoverno. Falar em terrorismo de estado é pouco para este caso, pois certamente se está diante de uma inequívoca violação dos direitos humanos, caracterizada por prisão ilegal, violência, tortura e coação, o que abre um perigoso precedente quanto aos meios utilizados para calar opositores de regimes.  

A perseguição de Lukashenko aos jornalistas não é novidade: de acordo com a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Bielorus é o país mais perigoso da Europa para o exercício da profissão e mais de 500 jornalistas foram detidos, desde agosto de 2020, por registrarem manifestações contra a reeleição do ditador. Além de prisões, a repressão à imprensa inclui censura, bloqueios de sites e a recusa de gráficas oficiais a imprimir jornais.


Roman Protasevich, mais do que diretor dos canais Telegram Nexta e Nexta Live - que se tornaram as principais fontes de informação nas primeiras semanas de protestos antigovernamentais após as eleições presidenciais de 2020 -, é uma das vozes que não se calam diante da beligerância e obstinação de um regime que está há 26 anos no poder, oprimindo e mantendo sua própria população como refém. Mesmo estando fora do país, Roman foi acusado de incitar a desordem pública e o ódio social, levando a KGB (agência de segurança interna que ainda tem o nome da era soviética) a chamá-lo de terrorista, o que pode abrir espaço até mesmo para condená-lo à sumária execução.


É inaceitável, diante da situação, que a União Europeia, Estados Unidos, ONU e organismos internacionais em geral não reajam de forma veemente aos atos vergonhosos do ditador de Bielorus. Apelidado de "Batka" ("pai", na tradução em português), Lukashenko conseguiu manter ao longo dos anos sua popularidade especialmente na zona rural e entre as gerações nostálgicas da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Seu discurso apela para o nacionalismo populista, o combate à corrupção e o não entreguismo, mostrando-se descontente com os filhos ingratos da Nação, aos quais declarou ter “alimentado em seu peito", e dizendo que, sem ele, o país estaria "feito em pedaços". "Conseguimos construir um belo país, com as suas dificuldades e falhas. Se alguém o quiser entregar eu não permito, nem morto".


É frequente vê-lo, em uniforme militar ou em pistas de hóquei no gelo, cultivando uma imagem machista. Durante a pandemia defendeu que o coronavírus poderia ser prevenido com uma receita infalível: trabalho agrícola, sauna e vodka. Chegou a declarar, orgulhoso, que tinha sido infectado e que tinha vencido a doença sem nunca parar de trabalhar. Em uma partida, com o estádio lotado, ironizou ao dizer que não estava vendo nenhum vírus no ar. Infelizmente, o mundo está repleto de figuras como Lukashenko. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência. E assim, aos poucos, vai-se sufocando a democracia.


Crédito:Arquivo Pessoal

*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br




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