“Do escárnio e do ódio”, por Rafiza Varão

Opinião

Rafiza Varão | 23/05/2021 20:04

Há muita coisa acontecendo. Pandemia, CPI da Covid, crise política e econômica, crimes ambientais, aumento da miséria, da fome. Muita coisa mais importante que as reações do Facebook. Mas peço licença, aqui, para falar sobre uma delas, por menor que ela possa parecer diante de todo o panorama acima (e mesmo perante o jornalismo): o riso, que na nomenclatura da própria empresa é chamado de haha. Para ser mais precisa o haha foi criado em 2016, para acompanhar o tradicional curtir e mais outras quatro reações: amei, uau, triste e grr. A intenção era de que fosse utilizado quando o usuário estivesse diante de algo tão engraçado que a simples curtida não seria suficiente para expressar seu estado de espírito (o que também se esperava de amei, uau, triste e grr). A linguagem, viva, entretanto, transforma sentidos e mesmo emoticons ou reações encontram seu lugar na cultura que os acolhe. O haha da internet, como aqueles do mundo do lado de fora das mídias digitais, se revestiu de ironia, desprezo ou mesmo escárnio. 


Não há nada errado, em essência, nas variações do riso, que é parte imprescindível do nosso direito à expressão. Como temos ouvido, “rir é uma forma de resistência”. Ou, como o ditado brasileiro sempre apregoou, “rir para não chorar” é uma estratégia de sobrevivência. Mas debaixo da aparente insignificância do haha ou do festejo ou resiliência que ele possa ensejar, em postagens noticiosas sua presença tem demarcado um clima que transcende as páginas da empresa de Mark Zuckeberg, e vem sinalizando em alguns momentos o desprezo pelas informações jornalísticas. Junto a isso, percebe-se também o vislumbre das franjas de uma cultura de ódio e o desdém com o que poderia ser uma perspectiva de dignidade humana geral e de que há direitos humanos universais e inalienáveis. 


A reação haha, dessa forma, se afasta da gargalhada amistosa, do riso jocoso da surpresa que advém da piada (que quebra a previsibilidade da linguagem), e se mostra como escárnio, uma espécie de cusparada na cara de quem publicou informação, e que o dicionário Michaelis define como “1. Ato de caçoar ou de zombar de alguém ou de algo, a fim de provocar riso; caçoada, escarnecimento, ridicularização, zombaria; 2. Manifestação ofensiva de desdém ou desprezo em relação a alguém ou algo; desprezo, escarnecimento (...);  3. Aquilo que é objeto de caçoada ou zombaria; escarnecimento”. 


Crédito:Reprodução

No que diz respeito ao jornalismo e sua recepção pelo haha nas mídias sociais, todas essas definições são aplicáveis e se acentuam em notícias políticas, sobre a Covid-19 e que envolvem direitos de minorias ou simplesmente direitos humanos. Notícias de celebridades também rendem escárnio. Mesmo a morte do comediante Paulo Gustavo recebeu o haha, como mostrou o Correio Braziliense. Essa é uma observação empírica, de quem usa as mídias sociais todos os dias (e que pode ser confrontada a qualquer hora), mas arrisco dizer que uma pesquisa científica mais aprofundada a corroboraria, com dados e estatísticas. Uma rolagem no feed e os exemplos brotam facilmente.   


No caso do riso nas notícias políticas, ele é esperado e faz parte do jogo democrático rirmos de nossos opositores (embora, muitas vezes, devêssemos sentir mais tristeza e desilusão). Mas o riso sobre a morte, o sofrimento, o massacre, a violência, o arbítrio, o fim do estado de direito, a negação da humanidade no outro, como entendê-lo? Há nesses haha menos que alegria, menos que diversão. Há sadismo e ódio. Ressentimento também, diria Hannah Arendt. 


Reconhecer a dignidade humana como algo universal nos impele a compreender que há um valor intrínseco em cada um de nós pelo simples fato de sermos humanos - e isso é inegociável. O prazer do riso, então, diz mais sobre quem ri do que sobre quem escarnece. Esse prazer, no entanto, vem nos falando da sociedade mais do que sobre Ermenegildo Fundilho, o anônimo que ri nas postagens. Fundilho não está sozinho. 


Com ele, os milhares/milhões que desconfiam do jornalismo; com ele os milhares/milhões para quem os seres humanos são divididos em categorias (e alguns são definitivamente marcados a fogo como coisas). Essa certeza faz parte da semente do ódio. Como disse a filósofa alemã Carolin Emcke, em seu livro Contra o ódio (Editora Âyiné, 2020), “É necessária uma certeza absoluta para odiar. Qualquer ‘talvez’ já seria um estorvo”. É preciso prestar atenção no ódio que aparece sob a forma de haha nas reações às notícias, pois ele nos fala de nosso tempo mais do que as curtidas. 

 

Enquanto escrevo as últimas linhas deste texto, checo pela última vez o Facebook. O haha continua lá, nas postagens de dor e de assombro. 


Crédito:Arquivo Pessoal


*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jorna-lismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especi-almente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Im-prensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.





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