“Exigência de assinatura ou anúncios que pululam afastam público dos jornais online”, por Wagner de Alcântara Aragão

Opinião

Wagner de Alcântara Aragão | 07/05/2021 08:43

O título deste texto é mais hipótese do que propriamente fato cientificamente comprovado. Contudo, o ensaio empírico que venho realizando nos últimos cinco meses indica forte tendência de confirmação da frase acima.


Trago aqui essa avaliação preliminar porque esse efeito colateral apontado está prejudicando profundamente o acesso à informação produzida de forma profissional. Está prejudicando, portanto, o acesso à informação de qualidade. E comprometendo esforços contra as fake news e discursos de ódio.



Desde janeiro, tenho procurado navegar em jornais profissionais online – tanto de alcance nacional, como veículos mais voltados à sua localidade – e compartilhar um e outro link em grupos de whatsapp, ou com contatos em geral. Incluo também blogs de mídia alternativa, dos mais variados espectros, mas dentro de uma linha editorial progressista. Faço, ao mesmo tempo, uma comparação com o que é compartilhado por outros interlocutores nesses grupos.


A leitura dos conteúdos nesses veículos é muito difícil. A pessoa precisa estar, de fato, bastante disposta a fazê-lo. Porque os entraves são estressantes. Reações de interlocutores apontam para essas dificuldades também.


Em parte desses jornais, geralmente os de corporações maiores, é preciso ser assinante. Ora, por mais inédito, mais importante, interessante, curioso que seja o fato relatado ou  a análise apresentada, nas atuais circunstâncias socioeconômicas está muito complicado se dispor a pagar pelo acesso. Prefere-se esperar pela repercussão, ou buscar por outros meios em que aquele tema poderá ser, de alguma forma, acessado.


Não raro, só pela identificação no veículo pelo link compartilhado, surgem reações de “ah, nem vou ver, tem de ser assinante”. “Tem outro link? esse precisa ter cadastro...”. Ou seja, nem um acesso inicial ocorre. O link é ignorado. Logo, o veículo de antemão perde potencial de acesso.


Nos casos em que o conteúdo é liberado na íntegra, iniciar a leitura e, mais ainda, seguir adiante, é um exercício de paciência. Pipocam pop-ups de anúncios diversos, de uma maneira ostensiva, interrompendo bruscamente o consumo do conteúdo. Vemo-nos na condição de um atleta tendo de driblar adversários e barreiras. Só estando mesmo muito, mas muito disposto, para ir até o fim. Se a página não travar antes, é a gente que larga mão, diante de tantos obstáculos.


Modelos de negócios foi tema do Mídia.JOR 2020 on demand

Não é de hoje que estamos atrás de um modelo de negócios sustentável, viável, para o jornalismo profissional. Sabemos que o processo de produção de conteúdo jornalístico é caro, portanto dependente de fontes regulares de financiamento. Só não conseguimos, ainda, encontrar a forma ideal.


Na 5ª edição do Mídia.JOR 2019, promovido pelo Portal Imprensa, abordou-se, por exemplo, uma apropriação mais efetiva dos recursos de inteligência artificial. Ainda neste portal, são frequentes as notícias, entrevistas e análises apontando casos bem sucedidos, outros nem tanto. Se não sabemos bem qual o caminho, nem qual não é, ao menos estamos convictos de que, do jeito que está... não está dando. Sigamos em busca.

Crédito:Arquivo Pessoal





*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.






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