“73% dos países são vítimas do vírus da desinformação”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 28/04/2021 07:50

Que a liberdade de imprensa vem sendo cerceada ano a ano, no mundo inteiro, isso já é bem sabido. Mas, quando dados de pesquisa de uma entidade séria e comprometida com a causa corroboram isso, a situação salta aos olhos de forma assustadora. 

De acordo com a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), em sua edição 2021 do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, o trabalho jornalístico está “gravemente comprometido em 73 dos 180 países e restrito em outros 59, num total de 73% dos países avaliados”. De acordo com a RSF, “esses dados correspondem ao número de países classificados em vermelho ou preto no mapa, ou seja, aqueles em que o jornalismo se encontra, respectivamente, em uma situação difícil ou grave, e aqueles classificados na zona laranja, onde o exercício da profissão é considerado sensível”. Vale lembrar que são cinco as cores usadas: branca, quando o nível de liberdade de imprensa é muito bom; amarela, quando o índice é bom; laranja, quando é problemático; vermelha, quando é difícil; e preta, quando é muito grave.

Crédito:Divulgação/ RSF

A metodologia, segundo a RSF, é “o grau de liberdade dos jornalistas dos 180 países listados, que é determinado graças às respostas obtidas através de um questionário preenchido por especialistas da área. Soma-se a essa análise qualitativa um balanço quantitativo dos casos de violência cometidos contra jornalistas considerando o período estudado. As temáticas sobre as quais o questionário se debruça são: pluralismo, independência dos meios de comunicação, ambiente midiático e autocensura, quadro legislativo que rege o setor, transparência e a qualidade da infraestrutura que sustenta a produção de informação”.

O questionário é destinado a profissionais de mídia, juristas e sociólogos, entre outros especialistas da área, e envolve 87 perguntas. As respostas, associadas ao balanço dos casos de violência cometidas contra jornalistas, permitem a elaboração de um indicador. E esse indicador, diga-se de passagem, mais uma vez é péssimo para o Brasil, que da 102ª colocação em 2018, passou para a 111ª posição, entre os 180 países avaliados, equiparando-se à Rússia, Venezuela e Turquia.

A China (posição 177) mantém-se na cor preta, no mapa mundial da liberdade de imprensa, por conta da censura e vigilância em níveis sem precedentes, e é seguida também por países totalitários que ocupam as últimas posições: o Turcomenistão (posição 178), a Coreia do Norte (179) e a Eritreia (180), onde inexiste liberdade de imprensa. A ausência de liberdade, de acordo com o Ranking da RSF, dá margem a abusos como a inexistência de registros de casos de Covid-19, bem como a prisão e tortura de dezenas de jornalistas, há décadas, numa clara demonstração de desrespeito e afronta à vida. Felizmente, na contramão da desinformação, a Noruega aparece em primeiro lugar no Ranking, seguida pela Finlândia (2º lugar), Suécia (3º lugar) e Dinamarca (4º lugar). 

O site da RSF cita também o barômetro Edelman Trust 2021, que mostra uma desconfiança pública em relação ao trabalho jornalístico: 59% dos entrevistados, em 28 países, acreditam que os jornalistas tentam deliberadamente enganar o público, divulgando informações que sabem ser falsas. Esse dado, por si só, mostra a situação perigosa em que vivemos, afinal, onde o Estado se impõe como força operante calando e denegrindo as vozes dissonantes, fica difícil existir a expansão da liberdade de pensamento. Tal como asseverou certa vez o jornalista birmanês, Win Tin, “a liberdade da informação é aquela que permite verificar a existência de todas as outras”. Sem ela, ruímos como democracia. 


Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br



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