“Que lockdown?”, por Rafiza Varão

Opinião

Rafiza Varão | 26/03/2021 16:09

Há pouco mais de um ano, assistíamos, perplexos, ao enclausuramento dos italianos que cumpriam sua primeira quarentena na pandemia de Covid-19. Lembro de me emocionar particularmente com uma cena na televisão: sozinho, um homem tocava violino, numa rua turística da Itália. A repórter indagou por qual motivo ele ainda permanecia fora de casa, tocando. Ele respondeu: sou diabético, preciso do dinheiro que ganho aqui para comprar meus remédios. 


Pouco tempo depois, mais uma cena marcante, naquele país tão pequeno diante do Brasil, no que tange à dimensão territorial. Na imensa praça São Pedro vazia, em Roma, o Papa Francisco realizou um ritual inédito, rezando e concedendo indulgência plenária (o perdão dos pecados) “Urbi et Orbi”, para a “Cidade e o Mundo”. 


No momento da benção papal, já 3 bilhões de pessoas estavam sob medidas de confinamento, 450 mil eram os casos da doença, e mais de 20 mil vidas já haviam sido perdidas para o vírus. Isolar-se passou a ser ato de sacrifício, de coragem ou de heroísmo. Uma necessidade de nossos tempos, perante o novo coronavírus. Para frear a propagação da Covid-19 era (e é) necessário que nos afastássemos, que reduzíssemos nossas atividades com nossos pares, cara a cara; o vírus gosta de gente junta e próxima.  


Contudo, essa lição tão inicial, ensinada de modo tão dramático, não encontrou no Brasil uma boa sala de aula. A quarentena, que por aqui se amalgamou à ideia de lockdown, passou a ser vista com maus olhos e rejeitada por uma parcela significativa da nossa população, inclusive por incentivo do governo federal. O slogan “Fique em casa” virou piada em alguns segmentos. Da mesma forma, passamos a conviver diariamente com o falso dilema entre saúde ou economia. Além disso, diante da confusão de diretrizes durante a crise sanitária que atravessamos, o emprego equivocado do termo lockdown, até mesmo por jornais, tem sido utilizado para fins políticos duvidosos, auxiliando a produção de discursos negacionistas no país. Jornalistas, cuja norma deontológica os impele à correta apuração e divulgação da informação, precisam rever o uso da expressão. Afinal, de que lockdown estamos falando? 


Escolhida palavra do ano 2020 pelo prestigiado Dicionário Collins, lockdown se refere a imposição de restrições rigorosas, em viagens, interações sociais e acesso a espaços públicos e privados, instituída como medida de segurança obrigatória. No caso da pandemia da Covid-19, o lockdown diz respeito a essas restrições aplicadas em função de um risco sanitário elevado e de seu impacto arrasador na saúde pública, limitando as atividades possíveis àquelas indispensáveis para a vida em sociedade, como os serviços de saúde e alimentação. 


Nesse sentido, lockdown é uma estratégia conhecida de contenção de doenças infecto-contagiosas, imposta por um governo, com adesão dos cidadãos que, ao deixarem de circular, também fazem com que o vírus do qual possam ser portadores circule menos, reduzindo a sua taxa de transmissibilidade. A ação tem eficácia comprovada, e se mostrou pertinente em diversos países. A China, primeiro epicentro da pandemia, controlou em grande medida seus casos pela adoção desse distanciamento social mais rigoroso que é o lockdown


Crédito:Reprodução
Queda nos casos de Covid-19 em Araraquara após lockdown.

Pela sua definição e forma de implementação, não podemos afirmar que o Brasil instituiu, de fato, uma política de lockdown, nem mesmo quando falamos de iniciativas estaduais ou municipais. Uma das poucas exceções a essa conclusão é a cidade de Araraquara, em São Paulo, que decretou  lockdown em fevereiro de 2021, e que vem colhendo os frutos desse esforço agora, em março.  


Assim, jornalistas não devem utilizar a expressão inadvertidamente, ou com base apenas naquilo que as fontes oficiais verbalizam, pois emitir a palavra nem sempre significa compreendê-la. Outra questão é que, muitas vezes, ao afirmar que há lockdown em alguma região e que essa iniciativa é prejudicial à população, muitas vezes a afirmação se carrega das tintas políticas de descredibilização do enfrentamento à pandemia no nível de estados e municípios, que tentam equalizar os desafios impostos pelo novo coronavírus. 


Crédito:Reprodução
Nota do portal Metrópoles sobre o toque de recolher no Distrito Federal, em fevereiro de 2021.

Quando o Papa Francisco caminhou na praça São Pedro sozinho, muitos de nós não queríamos acreditar que passaríamos pelo mesmo que a Itália vivia, até que a realidade e o conhecimento derrubaram com os dois pés as portas da nossa ilusão. Hoje, já sabemos muito. A César o que é de César. Medidas restritivas não são lockdown. Suspensão de algumas atividades não é lockdown. Academia e templos abertos não são lockdown. Toque de recolher não é lockdown. Quando o jornalista escapa da sua obrigação de precisar os termos, ara o terreno para que a desinformação e a mentira possam germinar. 



Crédito:Arquivo Pessoal


*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jorna-lismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especi-almente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Im-prensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.






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