“A era dos ruídos”, por Marcelo Molnar

Opinião

Marcelo Molnar | 12/03/2021 08:41

Imagine uma pessoa utilizando peças de roupas apertadas que não param de pinicar, com um fone de ouvido onde do lado esquerdo esteja reproduzindo uma música clássica e do lado direto um rock pesado. Sentada em frente a diversos monitores passando programas diferentes como filmes, futebol, novelas e outros seriados, recebendo vapores de essências de perfumes misturados com fumaça de incêndio, em uma sala com um ar-condicionado, direcionado ar gelado na cabeça e um forte aquecedor próximos dos pés, comendo feijoada gordurosa e bebendo leite gelado com alho. Qual será a possibilidade deste indivíduo aproveitar o ambiente? Qual seria a capacidade dele em absorver estas informações? Por quanto tempo aguentaria?


Crédito:Reprodução Folha de Vitória


Nosso sistema nervoso central muitas vezes recebe essa confusão de estímulos, em relação ao volume e a forma, sendo bombardeado por dados, mensagens e notícias todos os dias. Enfrentamos uma enxurrada de distrações. Estamos na “Era dos Ruídos”. Inúmeros são os fatores que atrapalham o nosso entendimento. Esses estímulos se convertem em tentações de maneiras diferentes. O que atrai a nossa atenção não é necessariamente mau em si, mas afeta e nos leva a querer satisfazer desejos, muitas vezes inconscientes, sejam eles quais forem. Embora os incentivos possam ser diferentes, eles têm algo em comum: absorvem nosso tempo, concentração e energia, e nos impossibilitam reflexões adequadas.


Por definição, existimos em um mundo que tem excesso de provocações. Vivemos num ambiente em que naturalmente ocorrem mais coisas ao nosso redor do que o nosso cérebro tem condições de assimilar. Por isso precisamos focar em algumas atividades específicas, evitando dispersões. É fato que quando aumentamos o volume de informações, aumenta nosso nível de estresse e perdemos nossa capacidade cognitiva. Ok! É sofrido resistir a tudo que parece interessante que nos cerca. Porém, culpar o mundo moderno por apresentar dispersões em demasia, é apenas uma forma de aliviarmos nossas responsabilidades e nossas culpas. Muitas vezes escolhemos a tecnologia como a grande responsável por isso. Mas esses desvios de atenção são em grande parte resultado das nossas preferências, por utilizarmos de forma imprópria os recursos que estão à disposição. É nossa a responsabilidade de como nos comportamos frente aos diversos comentários e as mais variadas opiniões.


Biologicamente, não somos muito diferentes dos nossos antepassados. Nossos instintos nem sempre estão adaptados ao mundo moderno. Alguns pontos fortes que tínhamos na Idade da Pedra tornaram-se vulnerabilidades hoje em dia. Nós, seres humanos, não dispomos de muitas defesas naturais. Não somos tão rápidos, nem tão fortes como alguns animais. Não temos garra ou presas, nem carapaça. Não cuspimos veneno. Não sabemos nos camuflar. E não podemos voar. Para tudo isso desenvolvemos artifícios e usamos a tecnologia. E foi através da nossa sagacidade que conseguimos dominar o planeta. Nossa mente é nosso ponto forte e fomos programados para detectar padrões e reagir a oportunidades e ameaças sem muita hesitação. Mas o excesso de ruídos às vezes nos leva a detectar padrões quando, na verdade, eles não existem.


Em comunicação os ruídos podem ocorrer de diversas formas: físicas, fisiológicas, psicológicas e semânticas. Onde quer que haja julgamento, haverá ruído. Eles são responsáveis pela nossa insatisfação, fator de aumento dos nossos erros, diminuem a produtividade e distorcem nossa visão de mundo. Os ruídos atuais são tantos, que chegamos ao ponto de algumas pessoas desacreditarem da ciência e acharem que o mundo é plano. No entanto, na maioria das vezes, não estamos cientes disso. Negligenciamos o barulho.


Obrigatoriamente, para o bem da civilização, temos que ser mais seletivos. Precisamos de pessoas, empresas e produtos que nos ajudem a administrar a situação atual. Não é lógico combater o fogo com mais fogo. O aumento da oferta de conteúdos e interações, não garantem qualidade nas escolhas e nas decisões. Existe uma diferença muito grande entre o que podemos fazer e o que realmente devemos fazer. A verdade é que estamos utilizando as novidades tecnológicas sem um aprendizado adequado, e sem pensar nas consequências. O atual déficit de atenção que sofremos não é culpa das inovações, mas sim das nossas escolhas.


Imaginamos o futuro empoderando os indivíduos com mais dados para uma vida eficaz, porém, os ruídos geraram um estado de vigilância constante, uma guerra entre transparência e privacidade, disseminação de notícias falsas, propagação de teorias conspiratórias, vazamentos, alienação e desconfiança. Se não cuidarmos dos excessos de ruídos, disfarçados de informação, estaremos condenados a ser exilados em uma realidade caótica. Se já não estamos...

 

Crédito:Arquivo Pessoal


*Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com pós graduação em Marketing e Publicidade, pela ESPM. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de redes sociais. Sócio Diretor do grupo Boxnet (Maxpress, Boxnet e Todo Ouvidos).

 



Leia também

“Os perigos da vigilância ilimitada”, por Marcelo Molnar

Estudo calcula prejuízo causado por Google e Facebook à imprensa espanhola