“Profissão Repórter volta com tudo, mas o horário é ingrato", por Wagner de Alcântara Aragão

Opinião

Wagner de Alcântara Aragão | 05/03/2021 17:56

Jornalismo com jota assim, maiúsculo, é o que faz o Profissão Repórter, da TV Globo, que voltou ao ar na última semana de fevereiro.


As restrições impostas pela pandemia de covid-19 de forma alguma limitaram a qualidade do programa comandado por Caco Barcellos.


Crédito:Divulgação Globo/Mauricio Fidalgo

Pelo contrário. As duas primeiras edições, além de primorosas do ponto de vista técnico, foram de uma consistência e responsabilidade ímpar, no que tange ao conteúdo.


Primeiro, retratando o colapso na saúde por causa da pandemia. E, na semana seguinte (na virada de 2 para 3 de março), trazendo à tona as profundezas de uma de nossas mais desumanas mazelas – a da miséria e da fome. Mazelas, por sinal, as quais não faz muito tempo estávamos por superar, mas que voltaram a fazer parte da realidade nacional.


As duas edições trouxeram imagens fortes. Sons doídos. Falas doloridas. Narrativas desesperadoras, depoimentos tristes.


Mas tudo, principalmente, com muito respeito – às fontes e aos telespectadores. Respeito por escancarar uma crueldade, que machuca, tomando o cuidado para não ferir ainda mais a dignidade das pessoas.


O único senão, que foge do alcance de Caco Barcellos e equipe, é o horário de exibição do programa.


Ora, a realidade brasileira que o Profissão Repórter expõe não pode ficar restrita ao pequeno público que pode assistir à televisão de madrugada.


A exibição para lá da meia-noite e meia, como está, isso sim é um desrespeito da emissora para com o trabalho de seus profissionais e, mais ainda: um desrespeito para com as histórias e as respectivas pessoas envolvidas.


A indignidade a que boa parte da população está sendo condenada, e que Profissão Repórter denuncia incisivamente, precisa ser apresentada em horário nobre. Precisa ser reverberada, repercutida.


Quem sabe, dessa forma, a sociedade se sensibilize, e se desperte da letargia atual. Não é, entretanto, só por esse motivo. Não é só por esperar que o trabalho jornalístico do Profissão Repórter atue como tratamento à inércia, que se defende uma realocação do programa na grade.


Emissora de televisão é uma concessão pública. Como está na Constituição, deve servir à coletividade. O Jornalismo do Profissão Repórter é isso: um serviço à coletividade. Para que possa exercê-lo plenamente, carece, contudo, de audiência de massa.


Crédito:Arquivo Pessoal


*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.







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