“Duas horas por dia, na Alameda Barão de Limeira”, por Rodolfo Guttilla

Opinião

Rodolfo Guttilla | 24/02/2021 07:40

Em 1986, graduei-me em Jornalismo. Os professores acharam que eu levava jeito para o ofício e me indicaram para a segunda turma do programa “Encontros entre jornalistas da ‘Folha’ e formandos em jornalismo”, realizado entre 17 de fevereiro e 11 de março de 1986. Iniciativa pioneira do jornal para aproximar recém-formados em jornalismo, de diferentes Universidades e Faculdades, do fazer jornalístico. 


A mesma “Folha de S.Paulo” que, dois anos antes, protagonizou a campanha das “Diretas já” (da qual participei, descendo a Rua Augusta com a esbórnia da banda do bar e restaurante “Spazio Pirandello”, em 25 de janeiro de 1984), tornando-se, a partir desse marco editorial, o veículo impresso de maior prestígio e circulação em nosso país. 

Crédito:Matuiti Mayezo/Folhapress


Jovenzinho, achei que havia me encontrado comigo mesmo e com meu destino. O programa contava com um processo seletivo para identificar os melhores talentos, e assim compor a equipe de jornalistas iniciantes - ou “focas”, no jargão da época. Nesse processo, ao longo de quase um mês passei duas horas diárias na sede da “Folha”, à Alameda Barão de Limeira, 425, 9º andar, região central de São Paulo. Em meio ao fragor da batalha para fechar a edição do dia. 


Segundo nota publicada no jornal, em 18 de fevereiro de 1986, éramos vinte e cinco recém-formados de diferentes escolas de comunicação. Ainda segundo a mesma fonte, Otavio Frias Filho, diretor de Redação, abriu o seminário e falou sobre os objetivos do encontro: “levar aos formandos informações sobre a produção de um jornal diário; abrir um canal entre o jornal, enquanto empresa, e os novos profissionais”. 


A direção da “Folha” destacou alguns de seus melhores profissionais para educar e inspirar os iniciantes na prática do bom jornalismo como André Singer, Carlos Eduardo Lins da Silva e Matinas Suzuki Jr. – dentre os que participaram ativamente do novo projeto editorial do jornal nos anos 1980, o “Projeto Folha”. E profissionais com grande experiência em seu ofício, como Boris Casoy, Cláudio Abramo, Clóvis Rossi e Jânio de Freitas, dentre outros bambas – o último, para o prazer do leitor culto e informado, ainda no batente.


Nesse processo de seleção, bati na trave e não fui selecionado na repescagem. Avaliando retrospectivamente, não levava mesmo muito jeito para o ofício de repórter: além de não possuir perfil generalista, achava o ambiente da redação muito ruidoso. Por conta dessa primeira impressão, acabei seguindo carreira nas Ciências Sociais, que cursava no mesmo período, já atuando como pesquisador e, em seguida, como professor.   


Cinco anos depois, mobilizado por outra iniciativa pioneira da “Folha” (que completava 70 anos), participei do “1º Seminário internacional de ombudsmen”: conduzido por Mario Vitor Santos, ombudsman da “Folha” à época, o evento contava com representantes dos jornais “The Washington Post” e “El País” e com a presença de Caio Túlio Costa - que, em 24 de setembro de 1989, tornou-se o primeiro ombudsman da imprensa brasileira. Um marco a ser lembrado, por leitores e cidadãos, sobre o papel da imprensa para a garantia da liberdade de expressão.  


Recentemente, reli o “Projeto Folha” elaborado pela rapaziada, nos anos 1980. Revisitei, também, o “Manual Geral da Redação” (a primeira edição, de 1984, e a segunda, 1987). Na contra capa da segunda edição, uma contundente defesa do ofício do jornalista e do papel do jornalismo na sociedade democrática, por Olival Costa, fundador da Folha: “Quem quer literatura busca-a nos livros. A função do jornal é informar. Mas informar não é apenas noticiar: é, a um tempo, selecionar e orientar. No esforço de selecionar se acha subentendida a obrigação de criticar”.


Passados cem anos desde sua fundação, acredito que o propósito da Folha se mantém firme e o prumo certo: um jornalismo crítico, pluralista e apartidário. E, no fragor da batalha para fechar a edição do dia, tecnicamente impecável. 


Crédito:Arquivo Pessoal









*Rodolfo Witzig Guttilla é Antropólogo e Jornalista. Autor de “Haicais Tropicais” e “amorhumorumor, haikais & senryus” (Companhia das Letras, o último em parceria com Alice Ruiz S).





Leia também

O prestígio da Folha e de seus filhos

“Os perigos da vigilância ilimitada”, por Marcelo Molnar