“Possibilidades palpáveis”, por Rafiza Varão

Opinião

Rafiza Varão | 03/02/2021 12:38

Uma das mais concisas e peculiares definições de notícia foi dada por Luiz Beltrão ainda na década de 1960. Segundo Beltrão, primeiro jornalista a se tornar doutor em Comunicação no país, é notícia “a narração dos últimos fatos ocorridos ou com possibilidade de ocorrer, em qualquer campo de atividade e que, no julgamento do jornalista, interessam ou têm importância para o público a que se dirigem”. Nessa afirmação, chama a atenção o deslocamento temporal realizado por ele, num salto do passado (ocorridos) ao futuro (possibilidade de ocorrer). O olhar genial de Beltrão apreende, no tempo que há de vir, uma competência pouco valorizada, mas essencial, sob muitos ângulos, à profissão de jornalista: a capacidade de fazer previsões.

 

Tal capacidade não se apoia em termos místicos, adivinhatórios, mas sobretudo pelo viés analítico e pela apuração rigorosa - e a pandemia da Covid-19 tem nos ensinado isso, a duras penas. Um ano de suítes, que gostaríamos que chegassem ao fim, sobre o grande desastre que o SarS-Cov-2 tem sido, nos mostraram que é possível compreender os cenários dos fatos numa dimensão mais ampla do que apenas o do tempo presente. Foi possível perceber que dados, matemática, conhecimento científico, percepção de causalidade e consequências... Tudo isso é cada vez mais necessário à correta divulgação da informação. E tem sido notório, nesse um ano também, que o tempo nada mais é que continuidade. Passado, presente e futuro se entrelaçam e ignorar suas conexões já não fazia bem ao jornalismo de trasanteontem.   


Crédito:Pixabay

Normalmente, quando circunscrito à produção de notícia, prever não é orientação corriqueira, uma vez que descrever se sobrepõe ao exame mais detido. É mais urgente dizer o que aconteceu. Mas mesmo no campo do texto informativo (noticioso), passado e futuro são dimensões do presente, como diz Edson Fernando Dalmonte. E se é assim com o mais descritivo dos materiais, na análise, na opinião, na interpretação, o fluxo temporal se exibe (ou deveria se exibir) de modo mais robusto, profundo e reflexivo. É dessa reflexão nascem as possibilidades, previsões palpáveis, acertos que prescindem da arte divinatória que advém de um dom especial. O jornalista precisa olhar para além do dia de hoje.

 

Dessa forma, prever significa somar, como delimita Dalmonte, o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes e o presente das coisas futuras, uma costura atenta, minuciosa, dos fatos, incluindo os que ainda não aconteceram, mas que sabemos que virão. “O presente das coisas passadas refere-se à concepção histórica, que, em sentido amplo, deve ser revisitada, pois é a historicidade dos fatos que agrega sentido, atualizando o ocorrido, que pode ser apresentado e reinvestido de significados. O presente das coisas presentes é o fato enquanto tal; é o anúncio ou apresentação de um acontecimento. O presente das coisas futuras refere-se à influência no porvir que o acontecimento narrado pode fazer ressoar. O evento narrado é capaz de antecipar realidades”, explica Dalmonte. É óbvio, e espero que isso tenha ficado claro, que a análise que prediz possibilidades palpáveis não pode ser leviana, mas calcada em observação, apuração e na sempre requerida responsabilidade profissional. Prever é alertar, preparar e antever caminhos. Como tal, precisa ser valorizada. Nesse alinhavo, o colapso na saúde se torna previsível, a disputa política previsível, o caos previsível, o ataque à imprensa previsível…

 

Crédito:Arquivo Pessoal


*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.

 




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