“A técnica FLICC e o negacionismo”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 26/01/2021 10:29

Você já ouviu falar da sigla FLICC, em inglês? Caso a resposta seja negativa, fique atento(a), pois é com o uso dela que negacionistas e mercadores da dúvida tentarão convencê-lo(a) a acreditar nas mais absurdas informações, disseminar fake news e até mesmo colocar a sua vida em risco.

O negacionismo científico - entendido como a contestação das descobertas da ciência - não é um fenômeno novo, afinal, a ignorância de não especialistas pode facilmente levá-los ao obscurantismo. Novas são as técnicas de convencimento com o uso de mensagens sorrateiras, que dão a sensação de verdade. Não é de estranhar, portanto, que você conheça alguém que se posiciona contra qualquer tipo de vacina, que não acredita no aquecimento global ou que crê, com todas as forças, na cura do câncer com chá de babosa ou outras baboseiras do gênero. 

Crédito:Reprodução

John Cook, pesquisador do Centro de Comunicação sobre Mudanças Climáticas da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, desenvolveu a sigla FLICC para estudar o negacionismo. FLICC significa: F: Fake experts (Falsos especialistas); L: Logical fallacies (Falácias lógicas); I: Impossible expectations (Expectativas impossíveis); C: Cherry picking (Seleção a dedo = Supressão de evidências); C: Conspiracy theories (Teorias da conspiração). É no uso da técnica FLICC que se apoia a pseudociência.


Os Falsos especialistas são mais comuns do que se imagina. Muitas vezes a crença equivocada de um punhado deles arrasta multidões, mesmo que 99% dos verdadeiros especialistas afirmem o contrário. São raros os cientistas, por exemplo, que não acreditam em vacinas, mas se meia dúzia deles levantar esta bandeira, isso já basta para uma legião de seguidores espalhar a desinformação, dizendo que “um grupo de cientistas renomados defende que a vacinação tem risco”. Isso sem falar, é claro, de aventureiros e profissionais de outras áreas que alegam autoridade por suposto conhecimento nunca comprovado ou totalmente irrelevante. 

As Falácias lógicas partem de premissas falsas para induzir erro ao receptor da mensagem. Recentemente foi disseminado nas redes sociais, por exemplo, que o governo de muitos países quer obrigar todos a serem vacinados contra a Covid-19 para ter o controle irrestrito sobre os corpos, pois a vacina vem com microchips que vão colher a identidade biométrica da população. Esse tipo de técnica apela para os medos do ser humano, produzindo anedotas que parecem ter lógica, mesmo que não se tenha qualquer prova contundente para suportá-las.

Crédito:Joao Tzanno /Unsplash
As Expectativas impossíveis consistem em exigir verdades absolutas da ciência, algo que é totalmente inviável, já que ela é uma espécie de livro aberto e a força do método científico consiste em seu constante aprimoramento. A crítica costuma ser uma postura bastante simplista e cômoda para os negacionistas. Se um medicamento, por exemplo, não está livre de dar efeitos colaterais, a solução mais cômoda proposta pelos mercadores da ignorância é recorrer a terapias alternativas, como sessões de cromoterapia, ozonioterapia, crioterapia, chás e ervas para curar doenças. O resultado disso é bem conhecido, com o agravamento do quadro clínico, muitas vezes levando o paciente a óbito. 

A Seleção a dedo/ Supressão de evidências é o que se pode chamar de um processo desonesto de escolha apenas dos dados que interessam, desprezando todos os demais que os contradizem. É, por exemplo, focar nos poucos casos de reações graves às vacinas contra a Covid-19 e desprezar todas as vidas que serão salvas por conta da imunização. 

Finalmente, as Teorias da conspiração são a face mais insólita da técnica FLICC. Os negacionistas partem do pressuposto de que a ciência não gosta de ver os seus dogmas contestados e, por isso, não aceita a verdade oculta dos fatos. Algumas dessas “pérolas” de teorias incluem: Michael Jackson está vivo, Elvis Presley forjou a própria morte, a Terra é oca e plana, o aquecimento global é uma farsa, nunca chegamos à Lua, o tsunami de 2004 foi causado por testes nucleares, os EUA sabiam com antecedência dos atentados de 11 de setembro, os Illuminati controlam o mundo e por aí vai...

O conhecimento e identificação das técnicas FLICC é fundamental para que a verdadeira comunicação da ciência prospere e combata o negacionismo, já que a população brasileira, em geral, é bastante vulnerável à desinformação. Nesse sentido, vale relembrar que uma pesquisa divulgada em 13/2/2020, conduzida pela empresa de cibersegurança Kaspersky, revelou que 62% dos brasileiros não conseguem identificar uma notícia falsa. O estudo foi produzido para entender a probabilidade de a população se tornar vítima de um “iceberg digital” - sites aparentemente confiáveis, mas que compartilham dados errados - e analisou a atual situação da segurança dos internautas na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru. 

Agora que você sabe o que procurar, pode reagir quando perceber que está sendo FLICCado, afinal, como resumiu o psicólogo e historiador americano de temas científicos, Michael Shermer, “os negacionistas da ciência nada sabem da ciência que negam”. Assim, cabe aos cidadãos informados e conscientes de seu papel social combater o obscurantismo dos mercadores da mentira, que não prosperarão, pois suas técnicas de persuasão já são conhecidas e a mentira de suas proposições está sendo continuamente desmascarada. 

Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br



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