“O efeito avestruz”, por Marcelo Molnar

Opinião

Marcelo Molnar | 13/01/2021 15:47

Os avestruzes são conhecidos por serem criaturas de aparência estranha e por seu hábito (na verdade fictício) de enfiar a cabeça na areia quando sentem o perigo. Isso é completamente inútil como estratégia de defesa, mas é ótimo como metáfora. Fazem isso para evitar o desconfortável. Muitas pessoas se comportam como avestruzes. Não vão ao médico, para não ter diagnóstico e enfrentar a possibilidade de estarem doentes. Evitam fazer planejamento financeiro para poder gastar o dinheiro sem peso na consciência. Não enfrentam as realidades da vida de frente e preferem o conforto de um buraco escuro e abafado. Do ponto de vista psicológico, o “Efeito Avestruz” é o resultado do conflito entre o que nossa mente racional sabe ser importante e o que nossa mente emocional prevê que será doloroso. 


Qualquer semelhança com o que estamos passando atualmente não é mera coincidência. Sim, estou falando do “negacionismo” presente atualmente em vários cantos do mundo. Vivemos um momento em que parte da sociedade se recusa em aceitar uma realidade empiricamente verificável. Na ciência, o negacionismo é definido como a rejeição de conceitos básicos, incontestáveis e apoiados por consenso científico, em favor de ideias tanto radicais quanto controversas.


Supõe-se que o negacionismo seja provocado por diversos motivos, como crenças religiosas, proveito próprio ou como um mecanismo de defesa contra pensamentos perturbadores. Os negacionistas climáticos insistem em não aceitar que uma mudança climática está em curso. O erro está no foco da comunicação em evidenciar o aumento de 1 ou 2 graus na temperatura média do planeta, que não sentimos e/ou não percebemos. Mas se os argumentos apontassem para os eventos climáticos extremos, como tempestades, tufões, grandes secas ou enormes alagamentos, cada vez mais frequentes, poderíamos ver as consequências mais próximas do nosso cotidiano.


Crédito:Shutterstock

A tecnologia transformou as guerras em jogos de computadores e, os conflitos que duravam anos, são concluídos em dias ou semanas tal a intensidade e poderio destrutivos das novas armas. Mas enfrentar uma pandemia é diferente. Acreditávamos que tudo seria solucionado em meses. A disponibilidade de uma vacina é apenas uma parte da solução. A história da medicina mostra que a erradicação de uma doença pandêmica é um acontecimento raro e pouco provável. De todas as doenças infecciosas que causaram pandemias, apenas a varíola foi erradicada, em 1980. As demais foram controladas por meio da imunização de rebanho, de medidas de prevenção, ou simplesmente se tornaram menos letais após mutações no vírus causador. O Covid-19 será endêmico.


A primeira pandemia registrada foi a Peste de Justiniano, ocorrida por volta de 541 D.C. que se iniciou no Egito e chegou à capital do Império Bizantino. Provocada pela peste bubônica e transmitida através de pulgas em ratos contaminados, a enfermidade matou perto de 1 milhão de pessoas apenas em Constantinopla, se espalhando por Síria, Turquia, Pérsia (Irã) e parte da Europa. Estima-se que esta pandemia tenha durado mais de 200 anos.


Em 1343, a peste bubônica foi mais uma vez a causa de outra pandemia que assolou os continentes asiático e europeu: a Peste Negra. Ela durou 10 anos e apareceu de forma intermitente até o começo do século XIX matando entre 75 a 200 milhões de pessoas.  Já em 1580, existem relatos da primeira pandemia de gripe, que se espalhou pela Ásia, Europa, África e América. Séculos depois, em 1889, a Gripe Russa como ficou conhecida, foi a primeira a ser documentada com detalhes e estima-se que mais de 1 milhão de pessoas morreram por conta de um subtipo da Influenza A. 


Em 1918, a Gripe Espanhola causou a morte de 20 a 50 milhões de pessoas, afetando não só idosos e pacientes com sistema imunológico debilitado como também jovens e adultos. Com outras variáveis durante o século XX, a gripe ocasionou surtos pandêmicos nos anos de 1957 e 1968. Em 2009, uma variação da Gripe Suína – anteriormente evitada na década de 70 – assolou a América do Norte, Europa, África e Ásia oriental.


Estamos em 2021. As empresas aéreas e os hotéis querem o retorno do turismo. Os investidores imobiliários querem o retorno do trabalho nos luxuosos escritórios. Os políticos querem a volta das aulas nas escolas. Os jovens querem liberdade para as festas e as baladas. A economia mundial está cambaleante. A sociedade se desinformando pelas redes sociais. Infelizmente o método do avestruz para resolver problemas é ignorá-los o máximo possível e, então, reagir agressivamente, em pânico e estresse agonizante, até quando finalmente são forçados a efetivamente agir. Evitar a verdade incômoda não apenas os impede de resolver os problemas, como os agrava. Medrosos, ignorantes ou oportunistas? Muitos líderes poderosos deveriam tirar a cabeça da areia.


Crédito: Arquivo Pessoal


*Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com pós graduação em Marketing e Publicidade, pela ESPM. Experiência de  18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de redes sociais. Sócio Diretor do grupo Boxnet (Maxpress, Boxnet e Todo Ouvidos).




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