“Cobrir a dor”, por Rafiza Varão

Opinião

Rafiza Varão | 04/12/2020 17:12

Em O mundo que enlouqueceu: os diários da guerra (1939-1945) (Madras, 2018), a escritora sueca Astrid Lindgren fala sobre os privilégios de se viver num país com certa abundância de suprimentos e território livre de batalhas durante a Segunda Guerra Mundial. Como observadora distante do conflito, informada apenas pelos jornais e cartas de combatentes, Astrid relata, no dia primeiro de setembro de 1940: “Hoje faz um ano que a guerra começou. Estamos começando a nos adaptar a ela”. 


De fato, parece haver uma inaudível, silenciosa, capacidade humana de se acostumar de algum modo ao sofrimento sobre o qual apenas ouvimos falar. No próximo mês, o primeiro caso documentado de Covid-19 completará um ano. Um ano intenso, em que não nos acostumamos a nada, e, ao contrário do que nos acontece em relação às guerras distantes, vimos de perto o avançar da dor em larga escala, com mais de um milhão e meio de óbitos no mundo, causados por uma única doença infecciosa. Ainda que tratados muitas vezes com indiferença, naturalização e negação, esses números e a realidade que eles expressam têm um peso e um impacto no cotidiano de maneira irreversível - e para aqueles para quem os números se transformam em rostos, ainda mais. Do lado de quem cobre 2020, há algumas lições que devem ou deveriam ser aprendidas, sobretudo naquilo que tange à cobertura do infortúnio e do trauma que épocas como a nossa produzem.  


A primeira delas talvez seja justamente a compreensão da dimensão do trauma e de suas “regras”, como assim as denomina o Dart Center for Journalism and Trauma, o maior centro de pesquisas sobre trauma e jornalismo no mundo, sediado na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Esses princípios, percebidos pelo instituto, não são normas rígidas, mas antes mediados pelo entendimento, percepção e sensibilidade do jornalista, promovendo uma aproximação ética e cuidadosa não só das fontes mas dos próprios temas abordados nesse espectro. Há, neste último, dor, feridas, rasgos e fixações temporais, dificuldades narrativas. Um grande terreno acidentado que requer sempre cautela. 


Crédito:Reprodução ANS

Essa mirada nos leva a uma segunda lição: é urgente ensinar os jornalistas a tratar disso tudo e esse ensinamento deve ser incluído nas suas formações, ainda na universidade. Não se pode construir um curso de jornalismo hoje sem que as variáveis da cobertura do sofrimento não se façam presentes (no passado também não deveríamos tê-las retirado de cena, mas o passado é terra onde não se pisa, nos concentremos no agora). Apesar de pouco nos aprofundarmos nessas questões, as tragédias permeiam o cotidiano dos jornais e todos nós conhecemos a famosa frase que poderia facilmente ser aplicada a esses eventos: “notícia boa é notícia ruim”. 


Para além do clichê, de mau gosto, há que se pensar que nos encontramos, no dia a dia da apuração, da reportagem, da redação, diante das feridas de outros e que estas não serão negociadas como um produto à venda ou como uma doação para a caridade. É preciso fugir do sensacionalismo barato e da vulgarização da adversidade. É necessário respeito e responsabilidade com quem nos oferece sua história. Essa atitude se refere ainda a uma mudança paradigmática difícil na relação com as fontes, apontada pelo ex-diretor europeu do Dart Center, Mark Brayne: o dever de cuidar. Para Brayne, “os  indivíduos  que  desenvolvem  PSPT  ou  outros estados traumáticos relacionados com sofrimento psicológico devem ter acesso adequado a tratamento médico, incluindo aconselhamento e psicoterapia. Mas,  ainda  mais  importante, a  cultura  na  qual  os  jornalistas  e  outros  correspondentes  que  se  encontram  na  primeira  linha  da  ocorrência  do  trauma trabalham têm de ser uma cultura de apoio, compreensão e compaixão, e que os tabus e estigmas devem ser removidos do sofrimento no qual incorre a reportagem do trauma”. A frase de Brayne se refere ao apoio que os próprios jornalistas deveriam receber de seus empregadores, mas pode ser também estendida às fontes. A elas também devemos oferecer compaixão e entendê-las como indivíduos que não estão por aí apenas para servir aos propósitos do jornalismo, devendo ser vistos em sua completude humana.  Essa terceira lição pode ser a mais laboriosa das três, mas é um ponto nevrálgico no caminho de uma abordagem que reconheça no outro uma pessoa de direitos, não apenas um elemento na composição do material jornalístico. 


Há, claro, muitos outros aprendizados que devem/deveriam ser extraídos desse primeiro ano da pandemia da Covid-19. Esses três, todavia, já evitam/evitariam algo que teria que ser eliminado de toda cobertura de sofrimento: causar ainda mais agonia a aqueles que já caminham debaixo da tormenta. 


Crédito:Arquivo Pessoal



*Rafiza Varão é doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (2012), na área de Teoria e Tecnologias da Comunicação. É mestre em Comunicação também pela Universidade de Brasília (2002), na área de Imagem e Som. Graduou-se em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo (1999). Leciona na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília e trabalha especialmente com Teorias da Comunicação, Ética e Redação Jornalística. Coordena o projeto SOS Imprensa e é coordenadora editorial da FAC Livros.





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