“Carrefour e o negacionismo do racismo”, por Sergio Bialski

Opinião

Sergio Bialski | 24/11/2020 16:57

Na véspera do Dia da Consciência Negra, João Alberto Silveira Freitas, um jovem cidadão negro que fazia compras com a esposa numa das unidades do Carrefour, em Porto Alegre, foi covardemente espancado até a morte num flagrante episódio de homicídio doloso triplamente qualificado (motivo fútil, recurso que impossibilitou a defesa da vítima e asfixia). Enquanto levava chutes e socos, era observado por uma funcionária da rede de supermercados, que, além de não fazer nenhuma objeção ao ato, filmou tudo como se estivesse participando de um corriqueiro evento.


Ato contínuo, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “tensões raciais são importadas e alheias à história do país”. Hamilton Mourão, vice-presidente, disse que “não há racismo no Brasil”. Até o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, que é negro, reforçou o posicionamento de que “não há racismo estrutural no País, mas sim racismo circunstancial”. Para ele, a concepção de "estrutura onipresente" que oprime e marginaliza os negros "não faz sentido nem tem fundamento". Nunca é demais lembrar que a referida fundação homenageia Zumbi dos Palmares, ícone da resistência negra à escravidão.


Crédito:Reprodução/ Youtube
Em relação ao discurso negacionista, ou as autoridades brasileiras não vivem no mundo real ou, pior, perderam por completo o bom senso e a noção de gravidade da situação. Ainda bem que o repúdio da sociedade e a ampla repercussão desse inominável ato de violência nos fazem retomar a sanidade mental, afinal, 20 de novembro é um dia de luto e de luta. Luta, antes de tudo, contra o negacionismo do racismo e a naturalização da violência e do ódio. Luto pela repetição do mesmo comportamento racista que oprime e envergonha, afinal, não é a primeira vez que o Carrefour se envolve nesse tipo de situação.


Em 2009, funcionários da unidade Osasco do Carrefour bateram num homem negro, sem piedade, alegando que ele estava roubando um automóvel (vale ressaltar que o carro era dele). Em 2018, novamente sem piedade, outro homem negro foi espancado no banheiro da unidade São Bernardo do Campo por supostamente ter aberto uma lata de cerveja. E, entre 2017 e 2018 (data não especificada pela juíza Cristina Cordeiro, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro), uma mulher negra, presa por supostamente furtar alimentos de uma unidade no Rio de Janeiro, foi levada para uma sala, espancada com um pedaço de madeira e estuprada como “lição e castigo”. 


Embora a lei seja rígida e puna exemplarmente os casos de racismo, a maioria são enquadrados como injúria racial, o que acaba abrandando a pena aos envolvidos. 


Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 43.890 negros foram assassinados no País, em 2018, dados estes que, por si, mostram que vivemos uma situação de racismo estrutural. Dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), do IBGE, apontam que 70% dos negros têm dificuldades de acesso à moradia e que mulheres negras têm 64% mais riscos de serem assassinadas em relação a mulheres brancas. Trabalhadores negros recebem salário 17% menor que o de brancos, de acordo com a PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). Além disso, de acordo com dados de 2020 publicados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, oito a cada dez pessoas mortas pela polícia, em 2019, eram negras e, das 755.274 pessoas presas, 66,7% eram negras. 


Como se percebe, o Carrefour é apenas a ‘ponta do iceberg’ desse flagelo chamado racismo. E nunca é demais, nesse momento, lembrar um bem conhecido texto do teólogo protestante alemão Martin Niemöller, a fim de externar a necessidade de nunca aceitarmos ou sermos coniventes com este tipo de situação: “um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar”. 


Crédito:Arquivo Pessoal


*Sobre o Professor Sergio Bialski: Graduado e Pós-Graduado em Comunicação pela USP. Mestre em Ciências da Comunicação pela USP. Possui mais de 20 anos de experiência no mundo corporativo, atuando como Gerente de Comunicação em empresas multinacionais. Coautor de 6 livros, palestrante e professor universitário, há mais de 10 anos, nos cursos de Publicidade, Relações Públicas e Jornalismo. É ganhador do Prêmio "Professor Imprensa 2018", promovido pelo Portal Imprensa, tendo sido eleito “o mais inspirador professor de Comunicação da Região Sudeste do Brasil”, em votação pública. Para obter mais informações, acesse: www.sergiobialski.com.br




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