“Público pauta e coopera com a produção jornalística”, por Fernanda Iarossi

Opinião

Fernanda Iarossi | 11/11/2020 16:44

Dias atrás a equipe do The Intercept Brasil publicou na newsletter semanal a ajuda de um leitor  – durante meses, ele tentou buscar informações junto ao governo federal sobre a existência de um plano para enfrentar a pandemia do novo coronavírus. 


A saga, que durou meses, envolveu receber respostas preguiçosas, links aleatórios e materiais incompletos, temporários dos servidores que atenderam à solicitação do cidadão via sistema de acesso à informação (um dos avanços com  a Lei de Acesso a informação).


Resumidamente, por quatro meses, o leitor solicitou tal documento através do canal da Presidência da República, que encaminhou para a Casa Civil, com retornos que não respondiam ao pedido inicial de uma “cópia do plano nacional para tratar os efeitos sanitários e econômicos da pandemia de Covid-19”. Ele recorreu, teve retorno da Ouvidoria-Geral da União que questionou as respostas anteriores e confirmou a não existência do plano formal.


O que foi coletado foi compartilhado com a equipe jornalística e gerou o relato que estimulou este artigo: a participação do público na produção jornalística. “Produção de conteúdo de forma colaborativa e horizontal” (FIGARO, NONATO, 2017) não é uma novidade nos meios de comunicação em geral. Por isso, a atualização, a partir das tecnologias digitais e dos avanços legais, sobre as formas e os usos desta colaboração se faz necessária, especialmente quando se coloca uma luz sobre os mecanismos de apuração potencializados por ferramentas tecnológicas como o e-SIC - Sistema Eletrônico de Informações ao Cidadão (ambiente digital do governo federal), acessíveis a qualquer um.


Crédito: reprodução The Intercept

O leitor conhecia a LAI, acessou o canal on-line, monitorou as respostas, insistiu e recorreu (o que é garantido por lei) para que alguma certeza chegasse diante da solicitação feita por ele. Ou seja, a consciência e o conhecimento dos mecanismos legais por parte dele foi essencial para que a equipe do The Intercept Brasil informasse: “Governo primeiro mentiu e depois admitiu que não tem plano contra efeitos econômicos e sanitários do coronavírus”.


O apurar, checar, tão tradicionais do fazer bom jornalismo, foram do leitor que persistiu diante das negativas ou evasivas respostas das autoridades federais. Esta união de ciência do que estava fazendo, insistência até a última instância para um retorno oficial certeiro tem a ver com “(…) as novas multidões virtuais, reunidas sem a necessidade de proximidade física, [que] podem cooperar, no âmbito intelectual, para a criação de novas obras e produtos (…)” (FELINTO, 2012).


A ideia aqui é destacar não somente a ação colaborativa do leitor e da expertise do The Intercept Brasil: e sim a postura cidadã, com conhecimento da legislação que fez, neste caso, total diferença na parceria entre audiência e jornalismo no que pode ser chamado de crowdsourcing, esquema “que pode ser entendido como um modelo de criação e/ou produção baseado em redes de conhecimento coletivo na internet, que serve para solucionar problemas, criar conteúdo ou inventar novos produtos de forma colaborativa”. (FELINO, 2012, apud FIGARO, NONATO, 2017).


Crédito:Arquivo Pessoal
 

*Fernanda Iarossi é jornalista, Mestre em Comunicação Midiática pela UNESP – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Neto. Professora nos cursos de Comunicação da UAM – Universidade Anhembi Morumbi e Fapcom – Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação e em São Paulo. Coordenada o Grupo de Pesquisa Discursos Midiáticos na Fapcom.

Referências:

FELINTO, Erick. Crowdfunding: entre as multidões e as corporações. Revista Comunicação, Mídia e Consumo (ESPM). São Paulo, ano 9, vol. 9 n. 26 p. 137-150 nov.2012. 

FIGARO, Roseli Figaro; NONATO, Claudia Nonato. Novos “arranjos econômicos” alternativos para a produção jornalística. Revista Contemporanêa, Comunicação e Cultura, v.15, n.01, jan-abr 2017, p. 47-63. 



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