Opinião: "Teria vindo Dias Gomes do futuro?", por Fernanda Iarossi

Releitura da novela Bem Amado rende resumo da semana na Rádio Sucupira – novela dos anos de 1970 “casa” com acontecimentos recentes, especialmente na política brasileira

Fernanda Iarossi | 27/03/2020 16:40
Crédito:Reprodução / Acervo TV Globo


Sexta, 9h58, Rádio CBN.

Odorico Paraguaçu, Doroteia, Dulcineia e Judiceia (as irmãs Cajazeiras), Dirceu Borboleta...

É a Rádio Sucupira que quebra o noticiário na "Rádio que toca notícia" (slogan da Central Brasileira de Notícias, braço all news do Grupo Globo, conceito que não existia no Brasil até outubro de 1991, quando foi criada a emissora). Humor dos personagens criados por Dias Gomes, em peça de 1962 e que virou novela na televisão em 1977 (O Bem-Amado), serve para resumir a semana no Brasil.

Em primorosa edição, a turma da CBN une as falas cedidas pelo acervo da TV Globo com os acontecimentos recentes. Os fatos políticos de hoje “casam” perfeitamente com os diálogos interpretados por Paulo Gracindo, prefeito corrupto, demagogo e que se elege prometendo entregar o cemitério municipal (detalhe: ninguém morre na trama para o político entregar a obra prometida e vira mote para trazer um matador de aluguel, nascido em Sucupira, para tentar “apressar” a inauguração do espaço público).

É a ficção inspirada na realidade? Ou ao contrário? Ou teria Dias Gomes vindo do futuro? (essa pergunta surgiu em bate-papo descontraído com o professor Maurício Gasparotto, colega de salas de aulas e também fã da produção radiofônica que faz rir e informa de um jeito leve e descontraído).

Tudo que aconteceu na primeira novela em cores na televisão brasileira (O Bem Amado de Dias Gomes foi ao ar em 1973, teve áudios e música de abertura reeditadas devido à censura) facilmente ilustra os capítulos da atual política – uma curadoria brilhante que une faro jornalístico, criatividade com amarrações junto da dramaturgia (um acervo precioso que funciona como um grande bando de dados para ser explorado e ajudar a registrar a história da TV). Por curadoria, resgato a discussão das pesquisadoras Elizabeth Saad Corrêa e Daniela Bertocchi (artigo na íntegra neste link): "Um curador de conteúdos é capaz de agregar novas e inusitadas perspectivas à informação, oferecendo aos seus usuários a surpresa, o inesperado ou simplesmente aquilo que o usuário nem imaginaria existir no mundo e sobre o mundo, ampliando seu próprio entendimento de mundo".

Diante da abundância de informação (e desinformação), essa ação que seleciona, edita e ainda une com ficção que garante humor com crítica social pode alimentar as ações para evitar distorções, manipulações que cegam a sociedade. Vale a pena conferir e até buscar outros trabalhos curadores que informam como os destacados em “Não sabe o que ler, ver, ouvir, acessar?”.

Crédito:Arquivo pessoal

*Fernanda Iarossi é jornalista, Mestre em Comunicação Midiática pela UNESP – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Neto. Professora nos cursos de Comunicação da UAM – Universidade Anhembi Morumbi e Fapcom – Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação e em São Paulo. Coordenada o Grupo de Pesquisa Discursos Midiáticos na Fapcom.

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