Silvia Bessa

  • Ninguém perde a batalha, por Silvia Bessa

    Steve Jobs, o revolucionário da informática, perdeu a batalha contra o câncer. O tenente- coronel venezuelano Hugo Chávez; Dominguinhos, herdeiro musical de Luiz Gonzaga; o ex-presidente da República José Alencar; e agora há pouco o jornalista radicado em Pernambuco Paulo Sérgio Scarpa, idem – disseram os noticiários. Só acho que os redatores esqueceram que escreviam sobre pessoas e para pessoas. Do contrário, não se justifica a repetição da frase “perdeu a batalha contra…”. Pensem bem: o sujeito passa uma vida inteira procurando ter sucesso ou liderança, ou apenas garantir a sobrevivência, matando sabe-se lá quantos leões por mês, enfrenta uma enfermidade e amarrota os sonhos e aí vê sua existência encerrada por um de nós com a imagem de perdedor?

  • Cultura ou Ditadura do 10?, por Silvia Bessa

    Crédito:Léo Garbin Não se falava sobre nada além do 10 de fulana no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e do 10 de beltrano entre estudantes de jornalismo no campus de Juazeiro da Universidade do Estado da Bahia, minutos depois de encerrarem

  • Vida em movimento, por Silvia Bessa

    Crédito:Léo Garbin Já beirando o final da entrevista, seu Antônio Brás, um trabalhador rural aposentado fez sua confissão: “Com essa antena que meu filho mais novo instalou acabou minha solidão de pai”. Lembro bem, estava sentado num alpendre a

  • Questão de dignidade, por Silvia Bessa

    Disseram a dona Maria de Lourdes, da comunidade de Juá, em Bezerros (Pernambuco), que o dono de uma cisterna é um fiscal. Ela gostou do rótulo. Passava o dia com um olho na galinha no fogo e outro na construção da cisterna do seu quintal. Enfiou na cabeça um chapeu de palha para fiscalizar o tal reservatório de água que o pedreiro Genival da Silva construía. “Menino, preste atenção, vê se não deixa vazamento”, exigente, recomendava

  • Olhe quem está falando, por Silvia Bessa

    Crédito:Leo Garbin Quando o conheci, Diego tinha 5. Pesava 14 quilos, o mínimo para uma criança da idade dele. Se perdesse poucas gramas, seria considerado desnutrido. Antes de vê-lo pela primeira vez, ouvi atentamente o relato de Tereza de Je

  • Escola de gente, por Silvia Bessa

    Há pouco tempo abri minha caixa de correio eletrônico e ela estava cheia de mensagens emotivas de leitores. Um deles falava da saudade da infância de forma genérica; outro, do filho; um terceiro não deu explicações. Confidenciou, no entanto, que eu o fiz aumentar a saudade guardada com ele. Fiquei até curiosa a respeito de qual saudade ele falava, mas o cidadão encerrou o contato comigo com um “obrigado”. Compreendi. Era sentimento dos mais íntimos; não tinha motivos para ser compartilhado.

  • Além da tragédia, por Silvia Bessa

    Crédito:Léo Garbin Para redações inteiras de jornais, rádios e televisões de Pernambuco, a semana do fatídico 13 de agosto de 2014 foi a mais difícil de todos os tempos. Ouvi tal análise de duas dezenas de colegas, sobretudo de profissionais m

  • O encontro, por Silvia Bessa

    Para mim, visitar o interior e escrever matérias sobre o que vejo e vivo é como voltar ao centro de mim mesma. Nasci em Recife, capital pernambucana, e não tenho familiares com casa ou sítio em pequenos municípios. Sou urbana, e sei disso porque não cogito férias com recesso total, relaxamento e silêncio absoluto por longo tempo. 

  • Não chorarás, por Silvia Bessa

    Estávamos diante do corpo de Camila – uma menina de 24 anos, repórter recém-formada que se internou num hospital no primeiro dia de férias, nas primeiras férias dela como jornalista. Chorávamos a futura ausência de Camila, o inconformismo dos mais íntimos diante do triste destino, a fatalidade de um câncer linfático que não lhe deu a chance de lutar mais. Sofríamos a impermanência do ser, a dor da família em torno do caixão que guardava Camila Souza. Compartilhávamos condolências com abraços que nunca demos.

  • O antes da entrevista, por Silvia Bessa

    Seu Zé Pequeno avisou à família que tinha visita na comunidade quilombola de Barreiro, em Coremas (Sertão da Paraíba). Aumenta o feijão. Pega a carne que ficou exposta ao sol para dessalgar e assa mais um pedaço. São duas pessoas. Distribua o recado para os vizinhos: foram suspensas, por duas horas, as viagens do barco que percorre os 54 quilômetros do açude e que aproxima a ilha à terra firme. “Não, obrigada pelo convite para a refeição. Estou sem fome”, eu disse, realmente agradecida.

  • O que a tecnologia nos obriga, por Silvia Bessa

    Crédito:Leo Garbin O sol estava tão quente que, ao olhar o asfalto, esmaecido e retilíneo, eu ficava nauseada como se tivesse tomado um porre. Já tinha feito duas entrevistas naquele dia. A seguinte seria numa cidade a 500 quilômetros daquele p

  • Da generosidade das fontes, por Silvia Bessa

    Sempre quis escrever sobre a generosidade das fontes, sobre essa boa vontade que algumas pessoas têm mais do que outras de contar com detalhes para nós – jornalistas e, na maioria das vezes, estranhos – suas histórias, emoções e opiniões. Toda vez que encontro um entrevistado assim, mais generoso, tento dar um aperto de mão com vigor, em sinal de agradecimento. Não sei se dá para perceber; mas desejo que sim, que o sujeito entenda que, sem ele, não haveria textos, vídeos, notícia.

  • Vamos à luta, por Silvia Bessa

    A foto de Fernando fica pendurada, solenemente, no apartamento de dona Elzita resistindo às intempéries de décadas. Em preto e branco, está sólida como a luta da mãe que nunca encontrou o filho, desaparecido no sábado de carnaval em fevereiro de 1974, após prisões do DOI-CODI/RJ. Fernando Santa Cruz era estudante de direito da Universidade Fluminense e tinha 25 anos. O cadáver do pernambucano nunca foi encontrado.

  • Fale com o jornalista

    Duas dúzias de rosas brancas e uma rosa vermelha compunham o buquê. No bilhete, trecho de uma música de Zeca Baleiro: “(...) Hoje acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado (...)”. O delegado – de braços musculosos, camiseta preta e sorriso no rosto – ficou defronte à placa da DP da 20º Circunscrição de Jaboatão dos Guararapes para a foto com o ramalhete. Igor Leite, o nome dele. Policial novo, 30 anos. Tem feito sucesso aqui na região metropolitana do Recife. Investe na comunicação.

  • Indignação obrigatória

    Crédito:Léo Garbin O motor do carro já estava ligado. Uma menina de olhos claros, seus 7 anos em média a tirar pela estatura, pele avermelhada, cabelo longo desgrenhado e franja mal aparada se encostou à porta de trás da caminhonete em que eu e