Ventos Fortes

Luiz Fernando Brandão | 29/04/2012 16:38
Crédito:Leo Garbin

Nunca foi dos mais tranquilos o ofício do comunicador empresarial. A atividade que hoje fascina e atrai jovens desejosos de uma carreira desafiadora e compensadora já envolvia noites maldormidas e doses regulares de adrenalina, mesmo quando se resumia a administrar as relações com a imprensa, editar publicações para clientes e empregados, redigir um ou outro discurso e organizar belos eventos.

Há não tanto tempo assim, qualidade, prazo e custo para prover especialmente conteúdos e meios de comunicar eram os grandes desafios da prática: as coisas tinham de sair no prazo, dentro do orçado e sem erros. Sobretudo sem erros. “A pressa passa e a porcaria permanece” foi a máxima que aprendi e desde então tratei de segui-la à risca, poupando-me de muitos dissabores.

A pressa permanece, a qualidade e o orçamento continuam fundamentais, mas os fins afinal ganharam precedência sobre os meios. O comunicador, alçado por seus próprios méritos e pelas circunstâncias ao papel de estrategista, convive com estresses mais sofisticados, à medida que a atividade cresceu em complexidade e o mundo, em incerteza.

A internet e as tecnologias acabaram de vez com os públicos “cativos” e sepultaram as visões simplistas acerca do controle da informação e da gestão da reputação. Todos os públicos conversam e formam opinião entre si, as empresas estão sob o escrutínio de todos e todos, mal ou bem, falam delas. Sinceridade ao falar e sabedoria ao ouvir tornaram-se a essência do jogo e a transparência, a alma do negócio.

As tensões internas comuns em sistemas hierarquizados tendem a agravar-se em função de disputas de poder, metas sempre mais ambiciosas, com prazos sempre menores e recursos quase sempre mais escassos para concretizá-las. Operar no ambiente corporativo passou a requerer, além de talento e criatividade, redobrado tato e diplomacia.

Por fim, traduzir esse imbróglio em boa e eficaz comunicação dentro e fora de casa; energizar acionistas, colaboradores, clientes, fornecedores e investidores; vencer o ceticismo e engajar as demais partes interessadas; e valorizar a marca em um palco onde todas querem brilhar não é, em definitivo, uma tarefa fácil.

Na condição de veterano do front, tenho observado com admiração os companheiros de ofício e aprendido bastante, sobretudo com as mulheres, sobre o valor da resiliência no admirável mundo novo da comunicação corporativa.

Nossa atividade caiu no gosto das administrações e é crescentemente valorizada. O Brasil é enfim percebido como o país da hora e os tempos conspiram a nosso favor, criando oportunidades que, bem aproveitadas, poderão ajudar a reduzir as desigualdades que a tantos afligem e a todos envergonham.

É a hora e a vez do comunicador empresarial brasileiro. Melhor estarmos bem preparados, pois os tempos à frente serão de ventos fortes.

Coluna publicada na edição de abril (277) da Revista IMPRENSA

Luiz Fernando Brandão é jornalista, tradutor e consultor de comunicação na In Futuro e membro do conselho deliberativo da Aberje.luiz@infuturo.net.