"Spotlight" brasileiros, núcleos especiais garantem credibilidade aos veículos

Gabriela Ferigato | 26/08/2016 15:00
Não foram poucos os jornalistas, calejados ou frescos na profissão, que saíram revigorados das salas de cinema após acompanhar a história real do incansável núcleo de repórteres do The Boston Globe que expôs as entranhas da Igreja Católica ao provar centenas de casos de abuso sexual e pedofilia cometidos por seus membros.

Enquanto os veteranos lamuriavam o fim do bom e velho jornalismo investigativo, combalido pela crise que assola os meios de comunicação, os novatos suspiravam ao saber que tinham escolhido uma carreira a serviço da sociedade. Em “Spotlight”, o filme em questão, durante seis meses, quatro profissionais rastrearam arquivos, entrevistaram vítimas, checaram depoimentos e gastaram muita sola de sapato para trazer a história à tona. Para fazer a engrenagem funcionar, precisaram de dois ingredientes básicos: tempo e investimento.

Aumentando bastante as proporções, por longos seis anos, um núcleo similar insistiu em uma reportagem especial para mostrar a realidade do país mais violento para um jovem viver. Em El Salvador, o crime se divide em duas gangues que disputam, há quase meio século, o controle de territórios para práticas de extorsão, roubo, tráfico de drogas e sequestro.

Esse núcleo, formado por aproximadamente 110 funcionários, faz parte de uma das mais antigas emissoras de televisão do Brasil, a Record. Sua aposta naqueles dois ingredientes básicos se dissolve da premissa de que encontrar materiais mais aprofundados na chamada mídia tradicional tem sido um trabalho de garimpo. “Nós somos aqui o ‘Spotlight’”, diz Rafael Gomide, chefe de redação.
Crédito:Aline Margatto
Rafael Gomide, Record
A equipe que, em 2007, começou com sete jornalistas, saltou para 56 – divididos entre editores, produtores, repórteres, estagiários, apresentadores e cargos de chefia. Abastecem, simultaneamente, três programas da emissora: “Câmera Record”, “Repórter em Ação” e um quadro para o “Domingo Espetacular”. Até julho, o “Repórter Investigação”, agora extinto do canal, também era abastecido.

“Estamos na contramão. O mundo atual prega imediatismo. Cada vez mais querem quantidade. Nós vendemos qualidade. Convidamos as pessoas, no momento do mundo moderno em que gastam trinta minutos para fazer trinta coisas, a passar uma hora em frente à tevê se informando sobre um único tema, sem se desconcentrar. É remar contra a maré”, ressalta Gomide, ao exibir, orgulhoso, os mais de vinte prêmios espalhados pelas paredes da sala.

OLHAR

No filme ganhador do Oscar deste ano, foi necessário a chegada de um novo editor para revisitar uma pauta, até então, desprezada pelo veículo local. Em 1998, o jornalista Marcelo Canellas propôs ao “Jornal Nacional”, da TV Globo, uma reportagem especial sobre o tema fome. Foram quatro anos de insistência até que, em 2001, conseguiu convencer a chefia de que era, sim, algo que mereceria uma abordagem mais profunda no principal telejornal da emissora.

“A disputa de ideias e o embate de argumentos, e a consequente definição sobre quais temas merecerão existência pública ou não no âmbito do noticiário, são parte da rotina de uma redação. Eu, provavelmente, fui me municiando, com o tempo, de mais e melhores ferramentas teóricas de convencimento que permitiram a aprovação da pauta no momento em que isso foi possível”, diz ele, atualmente integrante do núcleo de reportagens especiais do “Fantástico”. Chefiada por Gustavo Vieira, a área conta com áreas em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.
Crédito:arquivo pessoal
Marcelo Canellas (TV Globo) e equipe
A série, em cinco episódios, veiculada no “JN” em junho de 2001, se tornou uma das mais premiadas do telejornalismo brasileiro. Para Canellas, emblemática sobre vários aspectos, trata-se de um “anti-furo” de reportagem – um assunto que todos conheciam, mas, mesmo assim, desconsiderado como matéria-prima jornalística.

“A discussão permanente de todas as redações do mundo: o que merece ser notícia? Creio que o olho do repórter e a maneira com que nos colocamos diante da vida e do mundo em volta, nos ajudam nessa definição. Se vamos contar uma história com os mesmos clichês enfadonhos de sempre, é certo que não despertaremos o interesse do telespectador”.

No Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, o repórter entrevistou a lavadeira Maria Rita Costa Mendes, que viria a morrer de falência múltipla de órgãos, por desnutrição intensa, 15 dias após a conversa. O jornalista soube do acontecimento junto com os telespectadores, após exibição da segunda reportagem da série, por meio de nota-pé lida por Fátima Bernardes ao final do telejornal.

“Fiquei em estado de choque, me questionando para que terá servido aquela reportagem, se sua protagonista mais impactante estava morta. Refletindo melhor, me dei conta de que precisamos todos de muita humildade intelectual para compreender a complexidade da vida. O jornalismo pode muito, seja denunciando injustiças, seja apontando caminhos. Mas só quem pode mudar, de fato, o que está errado, é a sociedade politicamente organizada”. Dois anos depois, Canellas voltou aos mesmos lugares retratados para mostrar que a situação de miséria continuava da mesma forma.

MULTIPLATAFORMA

Acusada incansáveis vezes de ser a responsável pela “morte”, lenta e dolorosa, do impresso, foi graças à internet que O Globo passou a olhar com mais cuidado para o papel. Com o mantra “digital first”, Paulo Motta, editor-executivo do veículo, percebeu um nítida melhoria na qualidade do site, mas, em contrapartida, o jornal do dia seguinte estava muito parecido com o online.

“Não é apenas ‘digital first’, mas sim ‘news first’. Precisamos pensar no site, mas também fazer o jornal do dia seguinte diferente. Dentro dessa estratégia, pensamos em um grupo que produzisse material diferenciado só para o papel, e que também pode alimentar o site no dia seguinte. O jornal fica quente, o site também. É um círculo virtuoso”, diz Motta.

O núcleo de reportagem especial, formado por cinco repórteres, se dedica a produzir matérias de segunda a sábado. Ao mesmo tempo, desde 2006, quando foi criado por Motta na editoria “Rio” e se espalhou por todo o jornal, diferentes núcleos centrados dentro das editorias se engajam nos chamados “Super Especiais”. “Isso gerou um calhamaço de prêmios para nós. A ideia é pautar debates”, ressalta. Em 2007, a equipe mostrou como, 22 anos após o fim da ditadura, havia um quarto da população carioca que, em favelas do Rio, vivia sob o terror de outra ditadura, a do crime organizado.

A série de reportagens, agraciada com o Prêmio Vladimir Herzog daquele ano, revelou que de 1993 até junho de 2007, quase 10,5 mil pessoas haviam desaparecido, segundo registros da polícia. Desse total, 70% estavam ligados a ações de terror de traficantes ou milicianos. Por comparação, esse número correspondia a 54 vezes o total de militantes políticos dados até então como desaparecidos (136) durante o regime militar.

O caráter multiplataforma já está enraizado no jornal O Povo. De acordo com Fátima Sudário, editora-executiva do núcleo de reportagem especial, criado em 2004 e formado hoje por quatro jornalistas, há um planejamento de curto, longo e médio prazos. No projeto anual estão os grandes investimentos – três a quatro por ano, o que pode incluir alguma efeméride. A cobertura do furto ao Banco Central de Fortaleza, o maior da história do Brasil e o segundo maior do mundo, é acompanhado por eles desde 2005.
Crédito:Iana Soares/ O Povo
Ana Mary Cavalcante, Cláudio Ribeiro, Fátima Sudário, Emerson Maranhão e Demitri Túlio (O Povo)
“Geralmente são especiais multiplataforma, que envolvem não apenas grande esforço de apuração e concepção estética próprios, mas parcerias com as outras plataformas do nosso Grupo de Comunicação. Nenhum desses projetos é concebido sem uma conversa prévia com os núcleos de audiovisual, web, rádio e tevê. O resultado tem sido muito interessante. Essa é uma cultura que já se espraia para as demais produções do núcleo de reportagem especial e do restante da redação”, afirma Fátima.

RETORNO

Em uníssono, os jornalistas elencam a credibilidade como principal retorno. “A reportagem de fôlego, a aposta na profundidade e na prospecção de grandes temas de interesse público são os fiadores dessa credibilidade que é, no fim das contas, a grande fábrica de prestígio que gera o interesse de todo mundo, dos anunciantes aos consumidores de notícias”, expõe Canellas.

A criação do núcleo de reportagem especial na RedeTV! foi uma das primeiras medidas que Franz Vacek, superintendente de jornalismo e esportes,  implementou em sua gestão há dois anos. Em setembro de 2015, ele foi à Washington (EUA) para negociar pessoalmente com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos o ingresso da Rede TV! como única emissora brasileira a integrar o seleto grupo mundial da investigação Panama Papers, sobre a indústria de empresas offshore.

Foram sete meses de trabalho trancado a sete chaves. “O impacto foi um divisor de águas em nosso jornalismo. É um investimento que já dá retorno editorial. Hoje não somos mais replicado res de agências de notícias”, pontua Vacek, ao ressaltar, porém, que ainda espera mais patrocinado res dispostos a investir em projetos de qualidade e que o jornalismo investigativo é mais valorizado pelos anunciantes no exterior do que no Brasil.

Nesse ponto, a Record tem uma grande aliada: as mulheres, acima dos 35 anos e pertencentes às classes A e B. Esse é o público consumidor do material produzido pelo núcleo. “A emissora também tem um compromisso com audiência, claro. Traz valores institucionais e um público extremamente interessante para as empresas anunciarem”, diz Gomide.

No meio tempo, bateram à porta de sua sala. “O governador Geraldo Alckmin acabou de dizer, ao vivo, que nossa matéria fará parte do inquérito do menino Ítalo”, disse, empolgado, um jornalista da equipe. A reportagem, exibida no “Repórter Record Investigação”, mostrou 15 fatos inéditos sobre a morte do menino Ítalo Ferreira de Jesus Siqueira, de 10 anos, morto pela polícia durante uma perseguição em junho deste ano. “Esse é o nosso principal retorno.”