"Síndico" da WMcCann, Seu Fava acumula histórias em agências de publicidade

Alana Rodrigues | 25/08/2016 13:00
Olhos azuis, fios brancos que cobrem a cabeça feito algodões, corpo magro e alto. Aos 78 anos, o Sr. Antônio Fava transborda jovialidade. Anda pra lá e pra cá no espaçoso prédio da WMcCann, uma das três maiores agência publicitárias do Brasil, localizada na zona sul da capital paulista. Demonstra ser atencioso a todo momento. “Pediu café pra ela?”, pergunta a uma das assessoras que nos acompanha. E bom humor. “Não vou tomar se não vou ficar nervoso”, brinca.

Conhecido pelos funcionários como Seu Fava, está há nove anos na agência, onde exerce a função de supervisor administrativo, que compara a de um síndico. “Basicamente cuido de tudo. Desde orçamentos de mesas, verificar estações de trabalho, supervisionar a expedição, a cantina, até a manutenção geral”, explica Fava, que conta com a ajuda de um eletricista e de um auxiliar. “A gente faz todo o trabalho possível aqui dentro, nada vem de fora”.
Crédito:alana rodrigues

Às oito da manhã já está na agência para abrir o prédio e atender qualquer pedido. O expediente é cumprido até às 19h, mas se precisar, trabalha mais um pouco ou chega mais cedo. Horário não é problema para ele. Certa vez, correu para a agência às três da manhã para conter um vazamento. “O guarda me ligou e vim. A gente tem de estar sempre atento. Qualquer coisa eu venho pra cá”.

Uma das funções que Seu Fava mais gosta é atuar na presidência da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa). Cinco funcionários de diversas funções integram a iniciativa adotada para verificar todas as ocorrências na empresa. Quinzenalmente, percorrem a agência e recolhem os alertas sobre eventuais condições de risco. “Procuro saber o que meus olhos não veem”, diz.

Em busca de mais conhecimento para atender às demandas da WMcCann, o supervisor faz cursos que o auxiliam em suas tarefas. No início de julho, estudou Gestão e Manutenção de Edifícios e já usou o que aprendeu na prática sobre o processo de reuso de água na agência. “A gente sempre tem de estar a par das coisas. Não pode ficar para trás se não o tempo come você”, frisa.

Animado, gosta de organizar as festas da empresa. E vai à caráter em todas elas. “Me transformo”, brinca. O bom humor e o entusiasmo de Seu Fava para adotar as iniciativas dos mais jovens conquistaram os funcionários. Uma de suas participações mais conhecidas aconteceu em 2014, quando a WMcCann liberou formalmente o uso de bermuda no verão, provocada pelo movimento “Bermuda Sim”.

A ação foi criada por um grupo de amigos cariocas, incomodados com o calor naquele verão. No site desenvolvido por eles é possível compartilhar o e-mail do chefe, que recebe a sugestão. A WMcCann gostou tanto da ideia que decidiu contratar um dos autores para trabalhar como redator publicitário. E Seu Fava foi um dos primeiros a trabalhar de bermudas. “Tem que acompanhar a mocidade”, afirma.

CURTA CARREIRA

A publicidade entrou cedo na vida do supervisor, que trabalha em agências há 39 anos. A primeira delas foi a Salles/Publicis, onde atuou na contabilidade, passou para o setor de mídia e depois virou chefe de Recursos Humanos. “Lá eu comecei de baixo e fui subindo até aprender a ser ‘síndico’”, afirma. Foi na Salles também que conheceu de perto o processo criativo na criação de anúncios. Aos 28 anos, chamou a atenção de um fotógrafo e foi convidado para ser modelo de campanhas. Guarda até hoje os registros das participações que fez em uma pasta que carrega para todo lado. “Falaram que eu levava jeito”, diz.

Um dos comerciais que protagonizou foi o da marca de desodorante Alert Limão. No vídeo, ainda em preto e branco, Fava incorpora dois personagens. Um deles, que não usa o produto, é dispensado por uma mulher, enquanto o que passa a loção logo a conquista. “O homem usa Alert Limão ou não usa nada”, destaca o locutor do comercial, que também foi veiculado em forma de anúncio. “Quando saiu esse filme eu quase me desquitei”, lembra, aos risos.
Crédito:alana rodrigues

Apesar da pastinha volumosa, preenchida com imagens das campanhas que fez, Seu Fava abandonou rápido a “carreira de modelo”. Depois de começar a se ausentar no trabalho para fazer os anúncios, seu chefe pediu para que decidisse entre dedicar seus esforços na agência ou nos comerciais. Escolheu a primeira opção. “Sempre dava uma desculpa. Dizia que iria ao médico, que estava passando mal, mas as revistas começaram a aparecer e ele percebeu”, conta. Recentemente, o supervisor relembrou a experiência ao participar de uma ação de uma revista sobre o Alzheimer. “Gostei. Queria fazer de novo”, confessa.

Depois de trinta anos na Salles, Seu Fava foi para a WMcCann, quando ainda se chamava McCann Erickson. Recorda-se, emocionado, do convite que recebeu para fazer parte da empresa. “Um dos antigos diretores me conhecia. Ele disse que precisava de alguém para arrumar a agência e perguntou se eu poderia começar no dia seguinte. Nunca vou esquecer esse dia. Eu chorava tanto”, conta, com voz embargada e olhos marejados.

Em 2010, Fava acompanhou a fusão da W/Brasil, do publicitário Washington Olivetto, um dos mais premiados profissionais da propaganda brasileira, com a MCCann Erickson. A nova empresa começou a operar no feriado de 1º de maio, com uma feijoada para integrar as equipes das duas agências. O supervisor queria, de qualquer jeito, homenagear o novo chefe corintiano. Ele, palmeirense roxo, pegou uma camisa do time alvinegro emprestada do filho. “Diziam que eu estava doido, mas tinha que fazer meu marketing”, explica. Além de vestir preto e branco, também transportou a bandeira do Brasil que ficava no antigo escritório para a nova sala de Olivetto.

Fora da WMcCann, Seu Fava preserva o hobby de montar maquetes de ferromodelismo, caminhar e passear com sua cachorra Nina. Ele também é fã de esportes radicais. Já saltou de asa delta e fez rafting. Gosta de viajar e fazer trilhas. Depois de ver uma reportagem sobre o Canyon Guartelá, em Tibagi (PR), decidiu se aventurar com a ajuda de um guia. “Fiquei uma semana andando no meio do mato”, lembra. Mesmo longe do trabalho, a publicidade o acompanha. Um de seus quatro filhos decidiu seguir na área por sua causa. “Ele disse que queria seguir minha carreira. E está se dando bem”, orgulha-se.