Estudantes contam bastidores de TCC em nova seção de IMPRENSA

Alana Rodrigues | 24/08/2016 12:00
Não é fácil para um universitário lidar com o temido e, ao mesmo tempo, tão esperado trabalho de conclusão de curso. Uma série de dúvidas cercam o estudante na hora de escolher o tema, decidir se vai se aventurar sozinho, em dupla ou grupo, definir o orientador, afinar um cronograma que realmente funcione e driblar o tempo, que parece se esvair num segundo, para dar conta de tudo. Mas, no final, a produção laboriosa vale muito a pena. O TCC pode ser mais do que a conquista de um diploma. Ele tem o potencial de abrir portas para o início da trajetória profissional.

Recém-formada pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (Fapcom), acabo de passar pela experiência ao lado de minha amiga Tavane Gusmão, com quem sempre dividi os trabalhos ao longo do curso. Juntas, decidimos escrever um livro-reportagem para contar histórias de mães e filhos que foram separados pelo cárcere. Nossa ideia era mostrar qual é o impacto da separação para as duas partes. Durante seis meses, visitamos a Penitenciária Feminina de Sant’Ana, em São Paulo, como voluntárias da Pastoral Carcerária, para entrevistar nossas personagens. Do lado de fora das grades, conhecemos seus filhos e familiares. Também narramos a trajetória de uma egressa, com a intenção de entender como funciona o processo de religamento do vínculo rompido.

Enfrentamos diversos desafios que pareciam não ter fim: processo burocrático para entrar na penitenciária, buscas por fontes, tempo para obter confiança das mulheres e de seus familiares, entrevistas limitadas a uma vez por semana em curtas duas horas, necessidade de desenvolver uma memória robusta por não poder utilizar gravadores ou câmeras fotográficas, procura em ONGs por egressas, viagens às casas dessas famílias, entre outras coisas. 

Também precisamos conciliar a produção do livro e do projeto com a nossa rotina de trabalho. No fim, além de aprovadas com nota máxima, ganharmos o reconhecimento de professores e incentivo para publicar o livro e participar de premiações, a sensação de orgulho e dever cumprido é indescritível, ainda mais quando o trabalho reforça suas convicções sobre a profissão.

Pensando nos desafios que os estudantes enfrentam às voltas com o TCC, IMPRENSA decidiu contar as histórias e os bastidores de trabalhos desenvolvidos por graduados em comunicação. A seção “Histórias de TCC” abre espaço para uma série no Portal que vai trazer, mensalmente, novas narrativas de universitários que carregam a experiência ao encerrar a graduação. 

Crédito:Arquivo Pessoal
Estudante Celina Filgueiras na comunidade Vila Autódromo no Rio de Janeiro

No fim do primeiro semestre deste ano, a jornalista Celina Filgueiras apresentou seu TCC na Universidade Presbiteriana Mackenzie e confirmou o que espera em sua trajetória na profissão: trabalhar com cinema, fotografia e jornalismo. Ela produziu o videodocumentário de 25 minutos “Legado”, que mostra como a desapropriação da comunidade Vila Autódromo, ao lado de onde foi construído o Parque Olímpico no Rio de Janeiro, afetou a vida de quem ainda vive no local. A estudante acompanhou a rotina dos moradores durante sete meses para expor as opiniões, os anseios, descontentamentos e as histórias de vida deles. A produção também mostra a mudança no cenário da região por meio de fotografias.

Durante o processo de produção do TCC, que é individual no Mackenzie, Celina precisou se organizar para fazer quase tudo sozinha: gravar, editar, entrevistar e escrever o relatório. No início, era difícil dar conta de todos os pontos que necessitam de atenção quando estava em campo para gravar. “Eu ficava ansiosa e acabava me atrapalhando muito, mas isso foi melhorando”, conta. Outro desafio foi o tempo. A estudante começou as filmagens em setembro do ano passado, mas o tema pedia que seguisse até abril de 2016, um mês antes da entrega do material final.

A escolha do produto para incorporar o tema foi uma das primeiras dúvidas da universitária. Como sempre teve afinidade com a fotografia, antes mesmo de ingressar da faculdade, pensou em produzir um livro fotográfico. Mas o audiovisual também a despertava atenção e era uma área que queria explorar melhor, já que pretende estudar cinema. “Resolvi me jogar no documentário. Apesar de saber que seria extremamente trabalhoso, quis enfrentar. Então busquei introduzir a fotografia no próprio filme, com imagens mais paradas e bastante imagem de apoio, deu super certo”.

Crédito:arquivo pessoal
Banca de TCC do livro-reportagem Entre os mortos na Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação

Ao contrário de Celina, a jornalista Josilene Rocha, graduada pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação (Fapcom) em 2015, teve de encontrar ao lado de seu grupo: Mariane Mansuido, Suely Melo e Tiago Melo, um modo para deixar uniforme a linguagem do livro-reportagem "Entre os Mortos - Narrativas de profissionais que trabalham com cadáveres". Na obra, os autores narram o cotidiano de sepultadores, tanatopraxistas, médicos legistas e promotores de funerais, trabalhadores que lidam constantemente com a morte.

Uma das principais dificuldades do grupo foi a busca por personagens. À princípio, eles também pretendiam entrevistar carpideiras, mas tiveram de desistir, por serem poucas no país e a única que conheciam no Sudeste apenas aceitar conceder entrevistas sob pagamento. Outro empecilho era conciliar os horários com os dos personagens, uma vez que sempre conversavam com eles em seus ambientes de trabalho, onde não tinham uma rotina. “Era comum, por exemplo, termos que interromper a entrevista diversas vezes para que eles realizassem alguma tarefa”, exemplifica Josilene.

A procura por personagens também foi uma tarefa complicada para Antonio Figueiredo, Amanda Souza e Lucas Luchon, que entregaram este ano o documentário “Conexão Haiti-Utinga” como TCC na Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). A produção mostra histórias de imigrantes e de brasileiros que vivem na região de Utinga, em Santo André. O bairro do Grande ABC se tornou um dos maiores redutos de haitianos no Brasil desde o terremoto que destruiu a ilha no início de 2010.
Crédito:arquivo pessoal
Grupo de haitianos e brasileiros se formam no curso do PRONATEC Turismo, na EMEIF João de Barros Pinto, em Utinga
Amanda conta que a primeira barreira do grupo foi se comunicar com as fontes. “Quando saímos para a primeira pesquisa em campo, não conhecíamos nenhum deles, então, nas primeiras conversas, até o grupo conseguir criar um vínculo de confiança, eles se comunicavam em crioulo haitiano e francês, e não temos ideia do que eles falavam entre eles”, relata. “Muitos ficavam retraídos e desconfiados quando chegávamos para falar do nosso projeto”, acrescenta Antonio.

A ausência de autorização para gravar em alguns locais também foi um contratempo para os estudantes, que queriam imagens do Núcleo Ciganos, comunidade onde existe a maior concentração de imigrantes haitianos e de uma Unidade Básica de Saúde, em que trabalhavam dois de seus personagens. O processo burocrático para obter autorização de comitês de éticas dos órgãos responsáveis, alvo de constantes críticas de universitários, inviabilizou a gravação.

PARA ALÉM DA FACULDADE

Os aprendizados são as maiores conquistas para os recém-formados. Celina conta que além de explorar o audiovisual, aprendeu a respeitar as pessoas com quem lidava, a ser mais paciente e concentrada. O trabalho também rendeu a ela amigos. “A amizade que construí com os moradores da Vila Autódromo é algo que vou levar pro resto da vida. Acredito que a maior contribuição que o trabalho me trouxe foi conhecer essas pessoas”, destaca.

Josilene afirma que, pelo fato de os entrevistados serem profissionais que lidam o tempo inteiro com pessoas em luto e todo tipo de situação que envolve a morte, muitos deles transmitiram reflexões profundas sobre o valor da vida. “Acredito que todos do grupo terminaram o TCC vendo a vida – e, consequentemente, a morte – de outro jeito. Além disso, foi muito surpreendente conhecer a sensibilidade e o carinho com que alguns desses profissionais realizam o seu trabalho”. Para ela, o TCC foi a oportunidade de fazer um projeto que dificilmente uma empresa daria espaço e com o qual ela e o grupo aprenderam muito em cada etapa.
Crédito: IMPRENSA
“Foi a chance de levar realmente uma experiência memorável da fase da faculdade”, ressalta. O grupo, que ganhou na categoria livro-reportagem na Intercom Sudeste 2015 e apresentou o trabalho na Intercom Nacional, pretende agora publicar o livro. "Participar de congressos assim e de conhecer o que de melhor está sendo produzido por estudantes de jornalismo de todo o país foi maravilhoso”, relembra.

Coordenar uma equipe fora do estúdio, gerenciar o tempo curto para as entrevistas, trabalhar o networking e conhecer a cultura haitiana são alguns dos aprendizados que Amanda e Antonio carregam do TCC. “Consegui enxergar um lado bom nessa dura realidade que eles vivem”, diz a jornalista, ao explicar que o grupo procurou fugir um pouco do foco negativo dado ao tema.

“Foram meses de muito esforço e trabalho que foi recompensado no dia da banca, representa para nós valorizar ainda mais o trabalho de um jornalista feito por etapas, pesquisas teóricas, dias de campo, pré-entrevistas, gravações, montagem de um pré-roteiro, edição e finalização”, observa Antonio. O grupo também pretende usar o documentário como portfólio e divulgá-lo na Internet, e em alguns canais, como TV Brasil e TVT.