Prestes a se tornar cinquentenária, ECA-USP resgata memórias em projeto feito por alunos

Gabriela Ferigato | 22/06/2016 17:15
Criada apenas dois anos após o golpe de 1964, que instaurou uma ditadura militar no Brasil, a Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP tem sua trajetória descrita pela resistência de alunos, professores e funcionários. Boa parte das histórias que preenchem seus cinquenta anos, completados em 2016, estão registradas no projeto “Memórias Ecanas”, com depoimentos de personagens centrais da universidade.

Há dez anos, o professor Paulo Nassar, do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP), desenvolveu a iniciativa como trabalho acadêmico a ser aplicado aos alunos do sexto semestre na disciplina Produção Audiovisual no Contexto das Novas Mídias, do Novo Social e das Empresas e Instituições. 
Crédito:ECA/USP
“O projeto trabalha a percepção da comunidade ecana sobre a escola e seus integrantes, além da questão do pertencimento. Reforça, o tempo inteiro, o protagonismo dos alunos e professores na sociedade brasileira nas diferentes áreas em que a ECA atua. Temos um resgate de marcos fundadores e ritos de uma universidade que é pioneira e matriz no campo dos estudos das novas comunicações e artes”, completa.

Dentre personagens diversos que fizeram ou ainda fazem parte da vida da ECA, os estudantes precisam pensar em todas as etapas que circundam o depoimento. Escolhem seus entrevistados, produzem a entrevista (roteiro e gravação), editam o material e, por fim, pensam em meios de veicular o produto. Já são mais de trezentas as gravações realizadas. “Nesses dez anos, sentimos que aumentou a autoestima dos alunos [e o orgulho de pertencer] à universidade”, diz Nassar, também presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje).

Paralelamente, a diretoria da ECA organizou uma comissão que, composta de professores de diversos departamentos, deu vida ao projeto Memórias da ECA/USP: 50 anos. Para levar adiante a iniciativa, foram usados recursos da reserva técnica institucional da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP. O material (documentos digitalizados, registros fotográficos e videoentrevistas), parte de um site comemorativo, tenciona mapear e resgatar as memórias da universidade numa linha do tempo.

José Marques de Melo, professor-fundador e ex-diretor, foi personagem central dessa história. “Vivi intensamente os anos em que trabalhei na USP. Foram anos em que me dediquei à universidade, fui professor em tempo integral, de dedicação exclusiva, cumpri meu tempo dedicado à pesquisa. Se pudesse destacar alguma coisa, diria o seguinte: os primeiros anos foram muito marcantes, pois havia não só uma grande camaradagem entre os professores como também um clima de cooperação”, disse, em 2014, em entrevista do projeto.

Luli radfahrer, professor e doutor de comunicação digital da ECA/ uSP e consultor em inovação digital
“A ECA é quase um sacerdócio. Quanto mais o tempo passa, mais clara vai fi cando a simbiose. Os alunos entendem que eles estão me ensinando um monte de coisas. [...] Meus colegas da ECA viraram de tudo: editor-chefe de jornal da Globo, editor da Época, diretor de criação da Africa. Quando eu era aluno, morava em uma república com cinco caras . O Marco não fazia porra nenhuma o dia inteiro [risos]. Ficava sentado vendo o programa do [Roberto] Avallone. Ele virou o Marco Bianchi e ganhou uma puta grana antes de todo o mundo. Quando penso o que é o Marco e por que o adoramos, vejo que aquilo ali é humor ecano.”

Clóvis de barros Filho, doutor e livre-docente pela ECA/ USP
“Eu vim parar na ECA no meio da década de 1990 com um título de doutor obtido na Universidade de Navarra (Espanha). Muitas coisas me marcaram. A primeira foi não ter ti do meu diploma de doutorado convalidado, mas o fato de ter feito na USP foi muito interessante e decisivo para convites posteriores – até vir trabalhar aqui. Como esse era um objeti vo importante, não lamento, não. Na ECA, o grande ponto positivo são os alunos. Eles permitem uma docência impossível em qualquer outro lugar, tanto pela forma como pelo conteúdo. Graças aos alunos, eu me moti vo a estudar e me preparo para dizer coisas que não disse nos semestres anteriores; eu inovo sempre.”

Marisa Orth, atriz, cantora, humorista e apresentadora brasileira
“Aqui eu encontrei a minha turma. Eu tive essa sensação. A EAD [Escola de Arte Dramática] era um lugarzinho diferente dentro da USP, dentro da ECA. A gente se achava mais louco, mais hippie. Tudo é inusitado em aulas de teatro. Eu me lembro de muitas peças, de classes fantásticas. A escola vivia em performances, vivências. Tinham atores [imitando] árvores durante três dias. Eu amava, morria de prazer de estar aqui. Eu aprendi a ser atriz aqui dentro. Entrei com talento e sai uma atriz.”

Ernesto Paglia, repórter especial da TV Globo
“Primeiro ano de faculdade, movimento estudantil pegando fogo. Eu pulei de cabeça e foi uma experiência enriquecedora. Vinha da pacata Ribeirão Preto [SP] e [tudo aquilo] foi um choque muito interessante. Deixou marcas [nas aulas]. Em telejornalismo, por exemplo, que se tornou a minha ‘especialidade’, tive dois semestres de aulas com o professor Madrid, que fazia um grande esforço para dar aulas de telejornalismo sem equipamentos.”

Marina Macambyra, bibliotecária e ex-aluna da ECA/ USP
“Menina do interior, 18 anos, saí da casa dos pais e vim cair na ECA em 1979. Isto aqui fervia. [...] Na minha época, estudante era uma força. Eram mais unidos, as coisas eram diferentes. De repente, eu me tornei funcionária. Percebi a contradição entre o discurso do próprio curso e a brutal realidade da posição do funcionário na universidade. Às vezes, as pessoas me perguntam: por que tanto tempo na ECA? Porque eu nunca achei outro lugar em que pudesse trabalhar com documentação audiovisual e com áreas que me interessassem tanto.”