Plataforma Blendle chega aos Estados Unidos almejando ser o “iTunes do jornalismo”

Gabriela Ferigato | 22/06/2016 15:15
Tal como a Netflix está para o cinema e o Spotify para a música, o Blendle anseia estar para o jornalismo. Lançada há dois anos por Alexander Klopping e Marten Blankesteijn, a plataforma holandesa permite que usuários paguem uma pequena quantia para ler um artigo sem publicidade escolhido em um catálogo com trezentos veículos de comunicação.

Diferentemente dos serviços similares, o modelo de negócio foge da conhecida assinatura mensal ao propor que o leitor pague apenas pelas notícias de seu interesse, o chamado pay-per-article [“pague por artigo”]. Segundo o acordo, 30% do lucro é embolsado pela plataforma, enquanto os 70% restantes vão para os jornais ou revistas parceiros. Como acontece com o direito de arrependimento de compra no Brasil, os usuários podem pedir o dinheiro de volta caso não gostem do material – hoje a taxa de reembolso é de 10%.
Crédito:Leonard Fäustle
Equipe Blende
Com mais de 650 mil usuários na Holanda e na Alemanha, em março deste ano a empresa lançou uma versão americana – até o fechamento desta edição, ainda em fase de teste – com o apoio de vinte publicações, entre as quais The New York Times, The Economist, Financial Times e The Wall Street Journal. O preço de cada reportagem, cuja definição fica a cargo dos publishers, varia de US$0,09 a US$0,49. 

“Embora exista uma grande quantidade de informação gratuita online, o jornalismo é algo totalmente diferente. O Blendle é um lugar para descobrir as notícias. [Oferece] um jornalismo notável e uma conta para obtê-lo de maneira fácil, sem ter de ter uma assinatura”, diz Michaël Jarjour, editor-executivo do Blendle na Alemanha. A plataforma emprega hoje setenta pessoas, sendo a sua maioria desenvolvedores de software, designers e técnicos. Desse total, 15 são jornalistas que recomendam as histórias que mais interessam aos usuários com a ajuda de algoritmos que analisam seus hábitos de consumo, como a Netflix já faz.

“Nossos usuários gostam de ler jornalismo investigativo, artigos de maior profundidade, análises interessantes e entrevistas contundentes. Em outras palavras, em sua maioria, querem ler o ‘porquê’, não ‘o quê’”, completa o editor. Mais da metade desse público tem menos de 35 anos. Segundo Jarjour, é exatamente o tipo de leitor que boa parte das empresas de mídia perdeu na última década.

ESTRATÉGIA

Em outubro de 2014, apenas cinco meses após o seu lançamento na Holanda, a plataforma recebeu um aporte de US$3 milhões do jornal The New York Times e da empresa de mídia alemã Axel Springer, que edita os jornais Die Welt e Bild, que, juntos, ganharam 23% de participação no Blendle.

Para Joseph Lichterman, que cobre mídia digital para o Nieman Journalism Lab, a indústria está disposta a experimentar micropagamentos. “Acho que as organizações de mídia estão intrigadas com a plataforma. As empresas com as quais conversei veem isso como uma experiência e um meio potencial de gerar receitas online, o que é realmente difícil de fazer hoje.”

Mais cético, o jornalista Max Tatton-Brown, freelancer de tecnologia de várias publicações (The Guardian, Wired, TechCrunch e Quartz) e fundador da agência Augur, diz que a parte complexa da iniciativa não é a ideia de pagar por conteúdo avulso no lugar de paywalls, mas, sim, a sua execução.

“Quantos serviços possuem, atualmente, seus dados de cartão de crédito? Fazer com que as pessoas preencham seus dados de pagamento já é difícil — ainda mais quando o principal benefício não é delas. O Apple Pay pode representar uma rota de escape para empresas como o Blendle, mas isso afeta sua margem de lucro e apenas as equipara com a concorrência”, opina Brown.

O primeiro jornal da América do Norte que testou o micropagamento foi o canadense Winnipeg Free Press em 2015. Segundo o Nieman Journalism Lab, cerca de oito meses após lançar efetivamente o sistema, aproximadamente 4.300 leitores haviam comprado pelo menos uma história. A expectativa do veículo, que também oferece assinaturas digitais mensais, é lucrar cerca de US$ 100 mil em receitas digitais em 2016.

De acordo com Jarjour, enquanto os publishers dos Países Baixos foram céticos quando o Blendle foi lançado, as editoras alemãs e norte-americanas foram facilmente “convencidas” a aderir à plataforma. Em 2009, o então articulista do New York Times David Carr, morto em 2015, instigava o público a aderir à ideia em seu artigo “Vamos criar um iTunes para as notícias”, lembrando que a loja de música havia vendido mais de 2,4 bilhões de faixas apenas em 2008.

Prestaram atenção nas palavras de Carr. “O negócio da música tem nos ensinado que os consumidores querem uma maneira simples de pagar por conteúdo. Como consumidor, você só quer pagar por aquilo que realmente vai consumir. Você quer algoritmos e redes sociais que o ajudem a filtrar e quer tudo em um lugar só. Enquanto os consumidores mudaram, jornais e revistas ainda não se adaptaram aos novos tempos. O jornalismo precisa de um iTunes”, disse Klopping, em março de 2014, em texto publicado no Medium.