Empresas apostam em séries de reportagem para atrair o público e aprofundar histórias

Matheus Narcizo | 22/12/2015 14:15

A internet foi responsável por uma nova forma de comunicação: além de textos rápidos e cada vez mais enxutos, há pouco tempo para que o leitor, ouvinte ou telespectador apreendam a informação. No entanto, ainda em meio à cultura da informação rápida, há espaço para matérias mais profundas, que demandam não só mais tempo e atenção do público final, mas também mais espaço nos veículos de comunicação.


Jornalistas como Roberto Cabrini, Eliane Brum e Valmir Salaro, por exemplo, galgaram espaço e voltaram suas carreiras para esse tipo de produção, mais analítica, com temas de forte apelo e interesse público. O objetivo é levantar todos desdobramentos de um fato, de forma mais humanizada e simples – muitas vezes com um tipo de linguagem que se aproxime ao máximo da utilizada pelo público final.


Para atender a demanda de rapidez e instantaneidade e, ao mesmo tempo, oferecer abordagens com mais profundidade sobre um tema, as séries de reportagens se tornaram uma boa opção para dinamizar e dar outros enfoques a um assunto sem se desconectar do ponto central da história. Visto isso, IMPRENSA buscou de que forma se dá a produção de uma boa série e como se pautam os experts no assunto.


INSPIRAÇÃO E EXECUÇÃO

 

Antes de todas as etapas que envolvem a prática do jornalismo – apuração, cobertura, desenvolvimento, entre outras –, profissionais da comunicação apontam que o próprio jornalista sabe se um tema pode ou não se tornar uma série. “A percepção de uma pauta passa muito pelo feeling do repórter”, diz Eduardo Paganella, da Rádio Guaíba, que teve a ideia da série “Violência contra Enfermeiros”, veiculada em setembro de 2015, durante uma conversa com familiares.


“[A ideia surgiu] durante um almoço com familiares que trabalham na área da saúde. Eles comentaram sobre agressões contra profissionais de enfermagem. Me chamou atenção a normalidade com a qual eles falavam sobre um assunto que não é normal. Eu estava jornalisticamente presente na hora certa”, diz.


O feeling também mostra sua importância no caso do jornalista Vitor Hugo Brandalise ao escrever a série “Sobre a Sede”, que narra a história – verídica – de um homem que planejou o homicídio da esposa, alimentada por uma sonda depois de dois AVCs, e seu suicídio. De posse de notinhas de alguns jornais, veio a ideia de produzir um especial.


Crédito:Pedro Matallo/Brio
“Sobre a Sede” narra a história – verídica – de um homem que planejou o homicídio da esposa

A série, que foi publicada na plataforma Brio e no caderno “Aliás”, do Estadão, atraiu grande audiência e foi dividida em sete atos. “A história que se transformou na reportagem ‘Sobre a Sede’, por exemplo, foi publicada em alguns jornais em setembro de 2014. Mas não saiu mais do que uma nota de poucos parágrafos. A partir dela, escrevi uma reportagem em sete capítulos, do tamanho de um livro de duzentas páginas”, comenta.


SEM LIMITES


E por que tornar uma reportagem de fôlego em série? Existem critérios que devem ser levados em consideração no momento da produção? Para Brandalise, principalmente na mídia escrita, o fato de dividir o material em atos traz elementos positivos à produção jornalística, como a interrupção do texto – o que impede um possível cansaço do leitor – e a forma de instigar a curiosidade no público, que fica aguardando pelos próximos capítulos da reportagem.


Autor da série “Os Pracinhas na Segunda Guerra”, o repórter Diego Antonelli, da Gazeta do Povo, também defende a transformação de uma reportagem em série como forma de “não limitação de conteúdos”. Para ele, em um texto único alguns assuntos podem ficar cansativos, o que se difere da série, se levado em consideração que o leitor não a discorre em um único momento.


“Uma única reportagem que buscasse contar o tema dos pracinhas poderia ficar muito superficial, se alongar e até afastar o leitor. Por outro lado, excluir tantas informações relevantes não me parecia o mais prudente e correto do ponto de vista jornalístico. Por isso, a série de reportagens nessa situação casa muito bem com a realidade e demanda, tanto dos leitores quanto das informações disponíveis”, afirma.


MÃOS À OBRA


Após o filtro jornalístico, é hora de colocar a produção da série em prática. No caso do impresso e da web, a utilização de imagens e infográficos acaba se tornando fator fundamental na condução da atenção e compreensão do leitor. É uma forma de deixar a série mais leve e atrativa. Em relação à mídia de papel, a web ainda possui o diferencial de fazer o uso de vídeos, o que dá à reportagem um atrativo a mais na interatividade com o leitor.


No rádio, segundo Paganella, é possível fazer melhor uso de dados oficiais – para a compreensão do ouvinte – e de trilhas sonoras, que chamam a atenção do público. “Os dados funcionam como argumento no rádio. Outro fato que faz diferença é a edição, como o uso mais intenso de trilhas sonoras, o que dá à série radiojornalística uma característica própria.”


Na tevê, Carlos Dornelles, repórter da TV Record e autor de “Diário da Seca”, ressalta a oportunidade de “fugir” da caretice ao entrevistar pessoas e conduzir a reportagem. Como veículo de maior audiência, a TV permite ao jornalista usar outro tipo de linguagem. “A maior importância é dar liberdade à criação. No jeito de entrevistar, no jeito de escrever o texto e na possibilidade de ousar mais na edição”, diz.


Crédito:divulgação
Carlos Dornelles é repórter da TV Record e autor de “Diário da Seca”


Importante salientar que as regras básicas do bom jornalismo são comuns a todas as mídias. “É preciso apurar muito as informações para publicá-las de forma correta – o que exige muita checagem. Também é imprescindível ter uma vasta pluralidade de fontes”, ressalta Antonelli.


Entre a apuração e publicação também há, muitas vezes, um longo período de dedicação intensiva ao produto. No caso de “Os Pracinhas na Segunda Guerra” foram cinco meses até a data de publicação. Em “Violência contra Enfermeiros”, três meses; “Diário da Seca”, um mês e meio; e “Sobre a Sede”, oito meses.


Apesar do trabalho duro, muitos profissionais não se dedicam exclusivamente à produção do especial. É preciso, então, saber conciliar o trabalho diário com a reportagem. Dornelles foi o único a se dedicar inteiramente à produção da série, enquanto Brandalise, Antonelli e Paganella dividiram suas rotinas entre a redação e a produção.


MERCADO


Nem sempre um produto que demanda mais investimento de tempo e dinheiro gera mais lucros. Na opinião de Marcelo Leite, diretor de marketing e produto dos jornais do grupo RBS, o ideal de que a produção de uma série seja baseada em seu retorno econômico não existe. A produção de reportagens de fôlego, ao menos dentro do grupo, leva em consideração, em primeiro plano, a qualidade do produto a ser ofertado ao público.


“Os especiais são uma crença no produto. Em muitos casos, nós nem criamos um plano de patrocínio em relação ao anunciante. Esse tipo de produto não é comercialmente viável por conta por conta do baixo tráfego de leitura. É muito mais pela qualidade e relevância”, disse o diretor, que ressalta algumas estratégias utilizada na divulgação de séries, como veiculação em jornal impresso, mídias sociais, TV e produção de teasers.


O vice-presidente de Jornalismo da Record, Douglas Tavoralo, segue a mesma linha de Leite. A diferença, no entanto, fica por conta da audiência das séries na emissora, que alcançam números consideráveis. “Investimos em séries desde 2006. Desde então, foram 450 reportagens de muito sucesso. As grandes séries exigem um investimento considerável, mas o tratamento especial dado pela equipe de jornalismo traz um retorno natural, seja na audiência ou na credibilidade”, conclui