Há mais de 30 anos no SBT, Liminha é atração à parte no “Programa Silvio Santos”

Jéssica Oliveira | 21/12/2015 14:15

Início dos anos 1980. Ailton Alves Sampaio Lima não conhecia o Pantanal mato-grossense, mas colocou no papel uma árvore que “viu” lá dias antes. Era sua imaginação e raciocínio rápido dando o ar da graça pela primeira vez no SBT, à época TVS. Começava a surgir o Liminha.


No dia que lembrava “sua viagem”, o paulista tentava uma vaga na emissora. A mulher do RH pediu o desenho de uma parreira. Ele rabiscou o que supôs ser uma. Em seguida, ela pediu que desenhasse outra árvore, diferente das conhecidas. “Fiz uma árvore maluca. ‘Que estranho, onde você viu?’, questionou. ‘A senhora já foi no Pantanal mato-grossense?’, respondi. ‘Não.’ ‘Fui lá essa semana e vi uma igualzinha’, disse. Aí ela riu e falou ‘você é o cara para trabalhar em televisão’”, conta.


Crédito:Jéssica Oliveira
Liminha está no SBT desde 1981, quando foi contratado como apontador de produção

Contratado em 1º de fevereiro de 1981 como apontador de produção, ele anotava os horários dos funcionários e das gravações. Seu expediente era noturno, das 22h às 6h, mas findo o movimento, às 4h, cochilava e acordava cheio de energia para ajudar quem precisasse: contrarregra, maquinário... “Fazia vários serviços e comecei a aprender.”


Quando sua função foi extinta, Gugu Liberato, que o conhecia de quando ele cobriu a falta de um colega, o indicou para a produção. Ele passou a trabalhar no departamento musical com os maestros, entre eles o saudoso J. Silvestre, de quem se lembra com carinho. Até que Silvio precisou de um auxiliar, e Gugu ligou para Liminha.


“Ele explicou o que eu tinha que fazer, mas eu tinha a emoção de estar ao lado dele, e errei. Ele disse ‘para trabalhar comigo tem que ser calmo, senão não vai dar certo’. Aí brinquei, ‘mas do seu lado quem fica calmo?’. E ele respondeu ‘televisão é tudo igual. É diversão para quem assiste. Para quem trabalha é um trabalho comum e qualquer’. Ele é assim: brinca, é amigo, mas não mistura. Trabalhando é profissional.”


Aos poucos, ganhou a confiança do dono da emissora e foi trabalhar apenas para ele, com exceção de Gugu, a quem podia ajudar. Animou todos os seus programas, primeiro como “O Passarinho”, depois como “O Pintinho” e, por fim, como Liminha. “O Gugu é um grande amigo. A gente sempre se fala, independentemente de estar em outro canal.”


Hoje, diretor de palco do “Programa Silvio Santos”, é responsável por passar o roteiro a ele, ajudar com dicas e informações sobre os convidados e tornar os cacos naturais. A conversa acontece por anotações e gestos. Silvio pode aceitar ou não suas sugestões. Ele pode cortar o homem do baú. E bola para frente. “Assisto tudo e leio muito. Quando o Silvio me pergunta sobre um artista, eu sei. Não que ele não saiba, mas não tem tempo de ver tudo. Fico sabendo o que está acontecendo e digo para ele. São bastidores ao vivo”, diz.


TCHAU QUE VIROU OI


Liminha nunca falou para Silvio, mas guarda com carinho um “tchau” que recebeu dele antes de ser seu funcionário. Sonhando com a televisão, o adolescente dizia à mãe que ia visitar a madrinha, mas corria para ver as gravações. “Um dia ele deu tchau para a multidão. Fiquei feliz, achei que era para mim”, lembra, rindo.


Antes de poder retribuir esse tchau, o paulista teve apenas um emprego como office boy na bolsa de valores. Em seu horário de almoço, escrevia pistas para os programas da emissora. Virou piada. Até que chegou atrasado dois dias seguidos. No primeiro, levou bronca do chefe. No segundo preferiu não entrar e foi ver o “Povo na TV”. Foi nesse dia que desenhou a “árvore maluca”.


Aprovado, tinha um dia para ser demitido do outro emprego. De volta à bolsa, ouviu um monte do chefe, que exigia o cumprimento do aviso- prévio. Só foi liberado porque o diretor que o contratou se convenceu de que estaria melhor na telinha. Estava certo. “Liminha” nasceu lá. Brincalhão, buscou um nome divertido para combinar, encontrou no sobrenome Lima. Foi “batizado” por Silvio: “Bom nome!”


O personagem cresceu também fora do ar, como empreendedor, empresário, palestrante e escritor. O figurino – boné branco da Tele Sena, óculos, faixa e meião – inspirou foliões pelos carnavais, e o próprio, que tem sua grife de boné e pretende lançar seu boneco. Ele também dá palestras para alunos de rádio e TV, e prepara um livro para 2016. A obra fala sobre o trabalho na tevê, a carreira, os bastidores, e traz depoimentos de apresentadores como Ratinho, Gugu e Celso Portiolli.


Casado há cinco anos com a dentista Fernanda Fiúza, a relação transborda o casamento. Ela é sua assessora de imprensa. Ele administra os três consultórios. “A gente mora no Rio de Janeiro (RJ), mas gravo três vezes por semana em São Paulo (SP). Quando estou na televisão, ela corre por mim, vende o artista. Quando ela está atendendo, corro por ela com as burocracias. Parceria total”, elogia.


Em paralelo, também compõe jingles e vinhetas para a emissora (“Eu tô que tô ligadinho em você. Eu tô ligado no SBT. Aqui tem alegria, aqui tem emoção, tem a família vendo televisão”) e para o Silvio (“Assanhado, assanhado, todo homem sei que é. Eu também sou assim, assanhado por mulher”). E busca fazer o público rir. Para ele, sua faculdade é a vida e os professores, os apresentadores. E isso basta. Sondado para trabalhar com Faustão e com Gugu, quando este mudou para a Record, disse não. “O Silvio é um superamigo, um superpatrão, que cuida. E o SBT é uma família.”