“Se pudesse escolher não seria tímido como fui”, diz o cronista Luis Fernando Verissimo

Jéssica Oliveira | 25/09/2015 15:15
O último e-mail trocado com Luis Fernando Verissimo, de 7 de julho de 2015, foi surpreendente. “[...] Desculpe a demora da resposta. Os e-mails se amontoam e às vezes se perdem. Não estarei em São Paulo com o ‘Barbaridade’, mas estarei no princípio de agosto. Poderemos combinar um encontro mais perto da data. Me escreva. Prometo que responderei com rapidez. Um abraço.”

No final do mês um novo contato. Silêncio na caixa de entrada. Com a ajuda do grande amigo Zuenir Ventura e de familiares, uma conversa por telefone. “Lembro do convite, claro. Mas podemos fazer por e-mail?” “Gostaríamos muito que fosse pessoalmente. É edição de aniversário da revista.” “Tudo bem.” Autor de “Da Timidez”, onde escreveu “para o tímido, duas pessoas são uma multidão”, o escritor que não fala aceitou falar.
Crédito:Haroldo Saboia
Luis Fernando Verissimo é o Perfil de IMPRENSA na edição de setembro nº315
O sim para ser “Perfil” de IMPRENSA era aguardado desde 2009, quando o então editor executivo Igor Ribeiro abraçou a causa. “[...] Sou daqueles chatos que preferem dar entrevista por escrito. Se você topar mandar as perguntas por e-mail, pode ser qualquer hora. Obrigado, e um abraço”, argumentou o convidado. O jornalista insistiu, o cronista não cedeu. A divertida troca de mensagens foi publicada em junho daquele ano. “Será um prazer encontrá-lo, mas não para entrevista. É só combinar a data”, despediu-se.

A data chegou, seis anos, muitos e-mails e pedidos depois. Às 17h de 8 de agosto, Verissimo recebeu a reportagem no apartamento da filha do meio, Mariana, em São Paulo. Vestindo calça, camisa e sapatos sociais, mal parecia que estava há pouco no tradicional cochilo da tarde. “Sempre peço para fazer por e-mail, porque acho que a gente se expressa melhor, pode parar e pensar no que vai dizer, enquanto que ao vivo isso nem sempre acontece”, comentou sobre o episódio com Ribeiro. 

O sábado quente de almoço em família começou na biblioteca Parque Villa-Lobos, onde falou com leitores sobre seu trabalho. Missões assim eram quase impossíveis, por causa da timidez, pedra permanente no sapato. Mas com a intensidade da caminhada de 79 anos, completados neste mês, o incômodo diminuiu. “Quando criança, era tímido mesmo, uma coisa quase que doentia. Ter contato com outra pessoa era difícil, se eu era o centro das atenções entrava em pânico. Isso me prejudicou muito. Com o tempo, melhorei. Se pudesse escolher não seria tímido como fui.”
Crédito:Haroldo Saboia

Mas a timidez fez dele um profundo observador de costumes e detalhes da vida cotidiana, que ele explica em texto e traços, em variados formatos e plataformas, desde meados dos anos 1960. Verissimo é escritor e cartunista, já atuou como tradutor, roteirista de televisão, autor de teatro e publicitário. Domina o gênero indefinido da crônica e prova que qualquer coisa pode ser ideia para o cronista.

Também fala por música. Ele aprendeu a tocar saxofone nos Estados Unidos, onde sua família morou duas vezes para acompanhar o pai, o também escritor Erico Verissimo, que foi lecionar em universidades americanas. A primeira experiência, dos 7 aos 9 anos, foi um pouco traumática. Sem saber pedir para ir ao banheiro em inglês, fez xixi nas calças no primeiro dia de aula. Já a segunda, dos 16 aos 20 anos, o aproximou da música. Na terra do jazz, decidiu aprender a tocar trompete como Louis Armstrong. A escola tinha saxofone. Aceitou. “Queria brincar de jazzista”, lembra-se. 

E ainda brinca. Já tocou com o Renato e seu Sexteto, o maior do mundo, com nove integrantes, e hoje toca com o menor: o Jazz 6, com cinco. Também participa da Muda Brasil Tancredo Jazz Band, formada com os irmãos Paulo e Chico Caruso e os jurados no Salão de Humor de Piracicaba em 1985. Com esta, no ano seguinte, só terminou dois de três shows em Brasília.

Após ficar em destaque para delírio do público, na última noite bateu o pé que só subiria ao palco no escuro. “Eu e meu irmão Chico Caruso protestamos dizendo que ele era nossa estrela. Sem ele não haveria show”, lembra Paulo. Mas não teve jeito. O gaúcho entrou anônimo. Terminada a abertura, o contrabaixista falou: “Vê se tem um médico na plateia”. Verissimo havia caído. Paulo encontrou um ortopedista que o socorreu. Levado de ambulância para o hospital, foi engessado com fratura no fêmur. “Nasceu para brilhar, disso a timidez dele não escapa”, diz o amigo de longa data. 
Crédito:Acervo pessoal Lúcia Verissimo
Verissimo, Aroeira, Jaguar e os irmãos Caruso

Confira o perfil completo na edição de setembro (315) de IMPRENSA.