Feitas por jornalistas, plataformas de checagem de discurso público ganham espaço

Jéssica Oliveira | 08/09/2015 16:15

Em 2003 Barack Obama ainda não havia sido eleito, não existia iPhone, Fidel Castro tinha mais um ano no poder, o Brasil curtia o penta sem sequer imaginar um 7 a 1 para a Alemanha, o Chaves morava no barril da vila e não se ouvia falar em veículos jornalísticos de fact-checking. Mas logo tudo mudaria.

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Naquele ano, o jornalista Brooks Jackson criou o site FactCheck para monitorar as declarações de políticos norte-americanos em campanhas na TV, debates, discursos, entrevistas e comunicados de mprensa. Em 2007, o colega Bill Adair lançou o PolitiFact na versão on-line do St.Petersburg Times, da Flórida. Feito para checar as frases da corrida presidencial entre Obama e McCain, o site passou a acompanhar o Congresso, a Casa Branca, a imprensa, comentaristas políticos e outros formadores de opinião. Inspirada neles, em 2009, a jornalista argentina Laura Zommer criou o site Chequeado. O pioneiro do gênero na América Latina abriu caminho para o chileno Del Dicho al Hecho, o colombiano La SillaVacía, o uruguaio UY Ckeck e os brasileiros Preto no Branco e Truco!, todos criados em períodos eleitorais de seus países.


Demorou 11 anos, mas o espaço, que era temporário, já começa a ser ocupado de forma permanente, pelo Aos Fatos, lançado em julho, e pelo Truco no Congresso, em agosto. A jornalista Tai Nalon criou o Aos Fatos com o relações públicas e programador Rômulo Collopy, por sentir falta de um acompanhamento objetivo das declarações da presidente Dilma Rousseff (PT) e demais políticos. Experiente na cobertura de Brasília (DF), ela pensou em fazer um blog, mas desistiu diante das iniciativas existentes.


Depois do agravamento da crise no país, retomou e ampliou a ideia. “Ofereci como blog para alguns veículos, mas achei que tinha mais potencial e decidi tornar independente. Fact-checking é o carro-chefe, mas já pensamos em novas formas narrativas. Pode ser que cresça para o storytelling com jornalismo de dados”, afirma.


Motivada pelo bom resultado do Truco! Em 2014, a Agência Pública se juntou ao Congresso em Foco para acompanhar o dia a dia do plenário, monitorando as frases mais relevantes ditas pelos deputados e senadores dentro e fora da casa. “Pensamos no Congresso como alvo, já que a representação parlamentar é a mais próxima do eleitor e, portanto, a que teoricamente mais deveria provocar a cobrança sobre as atitudes tomadas. O projeto se tornou ainda mais relevante pelo momento político do país”, explica Marina Amaral, codiretora da Pública.


Porta aberta


Depois do PoliticFact, Bill Adair criou o site The Reporters’ Lab para monitorar as plataformas de fact-checking. Até o fechamento desta edição, o mapa-mundi do jornalista contava com cerca de noventa iniciativas espalhadas pelo planeta, a maioria com viés político-eleitoral. Assim como Adair deixa claro em seu site, as responsáveis pelos projetos brasileiros acreditam que o fact-checking é uma tendência no jornalismo mundial, com a crescente desconfiança do público sobre a isenção e a correção do jornalismo contribuindo para isso.


Diariamente o ofício é examinado e debatido nas redes sociais, ao mesmo tempo que o público busca acreditar “em alguma coisa”. Por isso, as ferramentas para “separar o joio do trigo” com transparência ganham mais espaço. “Ao mesmo tempo que existe uma crise de credibilidade dos veículos tradicionais, da precarização de conteúdo e mão de obra, há necessidade e vontade, sobretudo de jovens, de acreditar em uma forma mais transparente de fazer jornalismo”, explica Tai. “Veículos independentes, dispostos a levar até o fim a apuração, doa a quem doer, são adequados para esses projetos”, completa Marina.

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A jornalista da Pública ressalta o jovem como um fato importante nesse processo. Segundo ela, essa parcela da população sabe de seu papel ativo na formação da opinião pública, e por isso recebe bem projetos que oferecem dados e fatos. “Também há um apelo visual e lúdico na forma como o projeto foi concebido, de jogo de carta de baralhos, de confrontar a autoridade, exigir explicações publicamente”, acrescenta.


Além do verdadeiro e falso


Apesar de partir do mesmo ponto, cada plataforma foca em um determinado tema e tem a sua forma de classificar o conteúdo analisado. O Aos Fatos, por exemplo, avalia falas, documentos e peças publicitárias dos três poderes de nível federal. A classificação é feita em graus diferentes de autenticidade: falso, exagerado, impreciso e verdadeiro.


“O Aos Fatos trabalha para ser complementar ao noticiário. Escolhemos o que analisar pela temperatura do noticiário, relevância do assunto e influência do político em questão. Temos que contribuir com o debate atual. O nosso foco é o quente”, diz Tai.


No Truco no Congresso, o discurso e os projetos de lei dos parlamentares são checados

com base em cruzamentos de dados, estatísticas e entrevistas com especialistas. O número de frases depende do que for coletado e considerado relevante dentro dos acontecimentos da semana.


A classificação do conteúdo é inspirada no truco, famoso jogo de baralho. As frases recebem uma “carta” que explica se a informação é verdadeira, está fora de contexto, é um blefe ou é considerada prejudicial para uma parcela da população. Além de dar as cartas, o projeto “pede truco” aos parlamentares, desafiando-os publicamente a explicar o que disseram. “O importante é que a maior parte dos assuntos de interesse público seja coberta através da checagem das frases dos parlamentares”, diz Marina.


Já no blog Preto no Branco, criado em 2014 para comparar trechos e frases de declarações do horário eleitoral na TV com dados públicos oficiais, a classificação tem sete categorias: “exagerado” (informação é correta, mas o dado foi levemente distorcido), “contraditório” (informação vai contra o que o próprio candidato já disse anteriormente), “verdadeiro, mas...” (informação está correta, mas vale uma ressalva), “insustentável” (não há dados públicos que comprovem a declaração) e “ainda é edo para dizer” (a informação poderá ser verdadeira, mas ainda não), além dos tradicionais “verdadeiro” ou “falso”.


“É muito importante que a checagem seja feita apenas com informações que o leitor poderia encontrar. Não valem recursos tradicionais de redação a que eles não teriam acesso, como assessorias de imprensa”, explicou Cristina Tardáguila, editora assistente de “País” no jornal O Globo e fundadora do Preto no Branco, à época de seu lançamento. Apesar de ter seu último post em março de 2015, o blog está ativo e deve ser permanente.


Mas nem só de jornalista se fazem plataformas de fact-checking. Além do uruguaio UY Check, criado por estudantes de ciência política, o chileno Del Dicho al Hecho (DDAH) é exemplo de que o modelo pode ser usado por profissionais de outras áreas. Segundo a cientista política Daniela Tejada, coordenadora do DDAH, o site chileno foi criado em 2011 quando o povo não conseguia saber o cumprimento das promessas feitas pelo presidente da República durante a campanha.


“Como a informação estava dispersa ou era inacessível, nós queríamos facilitar este trabalho com a nossa plataforma”, explica. Feito com a ajuda de um sociólogo e uma advogada, o objetivo do DDAH foi fortalecer a prestação de contas no país, instar o governo a fornecer essas informações em uma ferramenta institucional e gerar um estudo sistemático e análise da evolução da administração presidencial.


Além de motivar respostas da esfera executiva chilena e de ministros, o DDAH costuma ser fonte para a imprensa, que repercute o conteúdo do site. “Acreditamos que qualquer organização pode fazer monitoramento como este e a independência política fornece legitimidade social. Para nós, o mais importante é a transparência”, diz Daniela.


Marina, da Pública, vê a experiência do fact-checking como positiva e conta que a agência incorporou a ferramenta em sua rotina, estendendo-a para as outras produções jornalísticas, com o espírito do Truco!: o da checagem apartidária, isenta e aprofundada. “Essa intenção transparece para o leitor.”