Primeira mulher na bancada do "JN", Valéria Monteiro retorna à TV em projeto do canal Viva

Jéssica Oliveira | 15/07/2014 13:15
Quem assistia a TV Globo entre os anos 80 e 90, certamente se lembra da jornalista Valéria Monteiro, considerada musa do telejornalismo da emissora. Ela esteve à frente do “Fantástico”, do “Jornal Hoje” e do “Jornal Nacional” – neste, inclusive, fazendo história como a primeira mulher na bancada, em 1992. 

“O diretor de jornalismo na época falou que eu apresentaria aos sábados para ver se a audiência não ia rejeitar uma mulher na bancada”, lembra. Mas não houve rejeição e a porta aberta por Valéria jamais foi fechada. “Foi um pedaço conquistado para a presença feminina, num lugar de destaque no jornalismo de televisão”.

Crédito:Rogério Resende
Valéria apresentou até o começo de junho o programa "O Show da Vida É Fantástico" no canal Viva
Após um ano de “JN” ela embarcou para os Estados Unidos com a filha, Vitória, à época com três anos. No país, trabalhou como freelancer para empresas como a NBC, de Nova York; a Bloomberg; além de uma produtora que fazia documentários para o Discovery. No total, foram nove anos fora do país. Em 2000, voltou para apresentar o “A Casa é Sua”, da RedeTV!, mas o desembarque definitivo só ocorreu em 2001, após o 11 de setembro.

No país em definitivo, Valéria foi sondada por emissoras como SBT e Band, mas continuou tocando seus projetos e fazendo trabalhos pontuais, como o mais recente: apresentar o programa “O show da vida é Fantástico”, parte da comemoração dos quatro anos do canal Viva. O convite veio no último dia 26 de março, aniversário da jornalista. Entre os e-mails de parabéns, estava o de Leticia Muhana, diretora do canal, que, sem saber, presenteou Valéria. “Vou bastante ao Rio, mas moro em Campinas. Por causa do programa, fiquei mais tempo perto da minha filha, que está fazendo um estágio na capital fluminense”.

Então, em 19 de maio, estreou o primeiro dos vinte programas diários que resgataram videoclipes que fizeram história no “Fantástico”. Valéria, que comandou a revista eletrônica entre 1988 e 1991, recebeu convidados para comentar trechos e lembrar episódios marcantes sobre os filmes selecionados. Entre eles estiveram João Bosco, Paulo Ricardo e Wanderléa. “Termos vivido uma mesma época na TV criou uma intimidade e proporcionou conversas amigáveis”.

O último programa foi ao ar no dia 13 de junho e não há previsão de segunda temporada. Apesar de não sentir falta do telejornalismo, Valéria voltaria à TV, dependendo da proposta. “Gosto de trabalhar e de desafios. E televisão é minha formação profissional”.

IMPRENSA – Como surgiu a proposta para apresentar “O show da vida é Fantástico”?
Valéria Monteiro - A Leticia Muhana, diretora do canal Viva, me mandou um e-mail no dia do meu aniversário [26 de março], sem saber que era meu aniversário. Eu liguei no dia seguinte e ela pediu para conversar. Fui ao Rio e aceitei assim que ela falou o que era. Eu não estava procurando, fiquei muito feliz e agradecida pela oportunidade. Foi muito boa para mim, proveitosa de várias maneiras.

Essa volta no tempo foi emocionante?
É como se você parasse um pouquinho de escrever, mas de repente visse seu artigo de novo no jornal. Foi legal porque é um trabalho que está dentro do escopo do que sempre fiz. Teve momentos muito emocionantes, como a entrevista com o João Bosco, que cantou uma música que eu ouvia desde criança. Acho que a música tem o poder de impactar, de recriar emoções. Nesse sentido, foi emocionante, mas, mais que tudo, foi divertido rever pessoas e conversar, tudo num clima de muita leveza.

Você é muito autocrítica? Mudaria algo nas entrevistas?
Foram apenas dez minutos de programação diária. Por mais que a gente tenha feito algumas entrevistas até bem longas, o que é editado é o que se acha que valeu mais a pena. Sempre penso em melhorar, mas também não sou mais supercrítica.

Você tem acompanhado as notícias sobre a audiência do “Fantástico” e a mudança no formato?
A inovação é necessária, principalmente quando você está na dianteira. Não dá para sentar nos louros e deixar tudo acontecendo sem trazer mudanças e proximidade maior com a audiência. A TV está tentando lidar com as novas circunstâncias do ambiente midiático e a nova distribuição da audiência. Não é um problema  apenas da Globo ou do “Fantástico”, mas uma condição imposta a todos os canais de televisão não só no Brasil, mas no mundo.

Você foi a primeira mulher a apresentar o “Jornal Nacional”, em 1992. O que isso representa hoje?
Eu tinha pedido para sair da TV Globo por acreditar que já tinha feito todos os jornais da casa e não ver muito objetivo a ser alcançado já que o “Jornal Nacional” era um âmbito segregado às mulheres. Também estava sentindo necessidade de me reencontrar como pessoa, uma vez que comecei na Globo muito cedo, com 21 anos, e já tinha começado em Campinas [numa afiliada à Rede Record], aos 19. Precisava entender quem eu era, o que se esperava de mim. E o fato de ter tido minha filha me fez ter vontade de dedicar mais tempo à família. 

O Alberico [de Sousa Cruz], diretor de jornalismo na época, perguntou o que me motivaria, eu contei a situação e fiz a menção ao “Jornal Nacional”, uma perspectiva que eu nem levava em consideração. Aí ele voltou com o convite. Me comprometi durante um ano, porque já tinha em mente tirar um período sabático. Representa muito para mim e para outras mulheres que vieram depois.

Em entrevista à revista Marie Claire, você disse que levava bronca por sorrir ao final do JN. Como avalia a informalidade que alguns telejornais têm adotado?
Era um momento mais careta. A direção da época tinha dificuldade em achar que as pessoas poderiam entender o que era ‘informalidade versus seriedade’. [sorrindo] Acabei imprimindo uma personalidade diferente num momento em que as pessoas não podiam rir e não se opinava. Cada vez que se conta uma notícia, ela carrega uma perspectiva de quem conta. [A informalidade] Não [me incomoda], pelo contrário. É mais honesta. Leva em consideração que o jornalista é gente. Naquela época, se você pensasse, gaguejasse, era como se fosse um grande desabamento de terra.

Você sente falta do telejornalismo? Voltaria a ser âncora?
Não sinto falta. Acho que a gente faz um jornalismo ainda sisudo, orientado para crimes e tragédias. É uma obrigação de seriedade na vida que não sinto falta. Gosto de brincar, acho normal errar. Claro [que voltaria], mas depende da proposta. Gosto de trabalhar, de projetos, de desafios. E televisão é minha formação profissional.

A beleza ajuda ou prejudica na profissão de jornalista?
Ouvir elogios sempre é bom, mas essa obsessão pela beleza é ruim. A beleza física não é um valor, espero que as pessoas possam ver outros valores em mim. Há uma tendência, certo preconceito com as pessoas julgadas atraentes, como se não precisassem fazer mais nada da vida, como se aquilo garantisse o sustento. Não adianta ser bonito. A beleza pode chamar a atenção à primeira vista, mas não sustenta uma carreira.

O que falta na TV brasileira atual?
Faltam mais matérias de interesses que não sejam sobre polícia e política. Senão fica parecendo que a gente está vivendo no inferno. Embora muitas coisas não estejam indo tão bem, sempre podemos inspirar mudanças.